Devido ao sucesso do Concreto Já Rachou, passamos a maior parte do ano de 1986 na estrada, ou fazendo shows, ou divulgando o disco. A convivência de pessoas tão diferentes por tanto tempo, sob pressão, tendo que cumprir horários e, ainda, o gosto doce, mas nocivo, do sucesso, começaram a mexer com as relações internas dos músicos. Coisas pequenas irritavam. Ainda conseguíamos rir juntos, mas não estávamos mais atuando como equipe, mas sim como quatro indivíduos.
Foi assim que chegamos de novo ao estúdio A da EMI para gravar o segundo disco. A pressão era enorme, todos queriam um outro Concreto Já Rachou. Acontece que não tivemos tempo nenhum de compor músicas novas, não havia espaço na nossa agenda na estrada de ensaiarmos, de atuarmos juntos criativamente. Mas a gravadora queria o disco, então o jeito foi gravar as músicas compostas em Brasília que não entraram no Concreto. Não que elas fossem ruins, mas eram antigas e a vivência dos últimos meses da Plebe as tornaram distantes e pertencentes à outra época.
As idéias novas, três para ser exato, foram apresentadas à pressa e pouco exploradas. O Philippe trouxe A Ida, que considero a sua melhor e mais íntima letra até hoje. Música sensacional, diferente, com pegada e emoção, mas que chegou de forma bem crua ao estúdio, precisando de uma atenção grande de um produtor que não houve – mais sobre isso no final do texto. O que salvou a música e deu o grandor que ela necessitava foi a orquestração do Jaques Morelenbaum, mais uma vez participando de um disco da Plebe. É impressionante como ela evoluiu na estrada. Hoje a tocamos com mais segurança e com uma pegada melhor do que está registrado no Nunca Fomos Tão Brasileiros. Ela foi, naturalmente, escolhida como carro chefe do disco.
O Jander trouxe a pegada esquisita, porém muito Plebe, de Nada. Não tínhamos letra, então aproveitamos uma de uma música bem antiga, de quando a Plebe era só eu e o Philippe. Castanholas deram o toque mágico à canção, que, por ser de difícil assimilação, não agradou aos ouvidos cada vez mais pop dos radialistas. No entanto, virou cult entre os plebeus.
Mas cult mesmo virou Mentiras Por Enquanto. Essa foi composta pelo Philippe e eu numa noite de chuva após assistir um vídeo de Rude Boy do Clash. Fala do turbilhão de emoções que estávamos passando: uma mistura de alegria pelo sucesso, medo do futuro, saudades de Brasília, expectativa de um disco novo que não tinha músicas novas. Adoro quando essa química funciona entre a gente. Até hoje tem gente que nos shows grita: Mentiras!
Tudo certo para gravar, convocamos a mesma dupla campeã do Concreto para fazer a produção. Acontece que o Hebert não era o mesmo, não estava com o foco no disco. Muita coisa estava acontecendo em sua vida: havia levado uma chifrada da Paula Toller, descobrira o álcool, estava cotado para produzir o Gilberto Gil, os Paralamas estavam mudando o estilo – não havia espaço em sua mente perturbada para a Plebe Rude. Na verdade, e isso está claro para quem ouve o disco, não houve uma produção efetiva. Músicas fortes como Consumo e 48 saíram tímidas e insossas no vinil. A falta de produção foi tanta que o Renato exigiu que seu nome aparecesse na capa, e lá está, podem conferir, pois foi ele que conduziu todos os trabalhos, porém como técnico, não produtor.
Fico pensando que, se tivéssemos nos situado e percebido a situação, poderíamos trocar de produtor, o que seria um alívio até para o Hebert. Poderíamos ter trabalhado com outro, tipo Liminha ou Sussekind, e o resultado poderia ser outro.
Considero a capa de Nunca Fomos como uma de nossas melhores. Sua produção foi comandada pela Fernanda, mulher do Dado, junto comigo. As fotos eram de amigos de Brasília, Nicolau El-mor o principal. O quadro da capa especialmente pintado por um artista de Brasília, está hoje inapropriadamente nas mãos de nosso empresário de então, o Arnaldo Bortolom Rosa (que, se estiver lendo, por favor devolva!).
Para mim a gravação do disco foi bastante tumultuada. Como tinha trancado minha matrícula na UnB no último semestre de arquitetura, havia alcançado os dois anos limites para voltar e completar o curso, ou ser jubilado. Então dividia meu tempo entre gravar no Rio e estudar em Brasília. Gastei tudo que havia ganho na turnê do Concreto com viagens de avião. Não raro eu gravar de noite, pegar o avião de manhãzinha, assistir aula, voltar de tarde para mais uma sessão nos estúdios da EMI. Viajava para os shows com régua T e canetas nanquim e ficar trabalhando no quarto de hotel! Mais uma vez, se tivéssemos tido a clareza da situação, teríamos esperado um pouco, parado, conversado, ensaiado mais, composto outras músicas e, daí sim, entrar para gravar.
O disco foi lançado numa época muito infeliz: o maldito plano Cruzado II, quando o Sarney, mais uma vez, enganou a nação e provocou um recesso sem precedentes àquela década. As vendas de todos os artistas caíram, shows se tornaram mais raros e o disco não teve os holofotes que merecia.
Saímos dos estúdios direto para a estrada, com pouco ensaio e exaustos pelos meses que passamos dentro da EMI trabalhando no disco. Isso trouxe muitas conseqüências para a banda, que cada vez mais se polarizava.
Dito isso, preciso reconhecer que é um puta disco, favorito de muitos plebeus e que tem muitas músicas que gostaria de ressuscitar, tipo a já mencionada 48, Nunca Fomos Tão Brasileiros e Nova Era Techno.