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O diabo não é mais inteligente, é mais velho. Com a idade avançada, olhamos para os acontecimentos sob uma perspectiva menos emocional, mais racional. Com a experiência, sabemos que soluções radicais sempre prejudicam alguns que, mais cedo ou mais tarde, irão demandar reparos – talvez utilizando meios mais radicais ainda. Como o Philippe tão inteligentemente colocou na entrevista dada pela Plebe após o Porão do Rock 2005, hoje sabemos que o mundo não é preto, nem branco, é cinza. Sabemos que o imediatismo leva á soluções precárias. Principalmente sabemos que a negociação pode ser difícil, parecer impossível, mas sem ela, não haverá um mundo decente.
Vejo a foto, acima, e fico com medo de encontrar esse bando numa rua escura, à noite. De diabo do ditado popular não têm nada – nem inteligência, nem experiência – a não ser a ambição que deve ser resolvida a curto prazo. Custe o que custar. Vejamos o caso da Bolívia. Veja o que a Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa escreveu em sua coluna, que concordo inteiramente:
“O governo brasileiro, embalado pelo sonho distante de liderar a América Latina, afastando-se o mais possível do imperialismo americano, caiu nas artimanhas do crescente imperialismo venezuelano. Hugo Chávez dá as cartas e isso ficou extremamente nítido nesse último fim de semana, véspera do Primeiro de Maio em que Evo Morales resolveu cumprir aquilo que prometera ao seu eleitorado. No dia 1º de maio não ‘nacionalizou’ o que sempre foi boliviano, os recursos minerais. O que fez foi expropriar bens brasileiros e ocupar instalações da Petrobras com seu exército.
A Bolívia, para usar uma metáfora que não é futebolística, mas que estaria ao alcance do presidente-candidato, se ele porventura viesse a ler este texto, saiu do colo da mamãe e caiu nos braços de uma amante instável, mais velha e muito ambiciosa. Será que o povo boliviano, além de poder gritar a plenos pulmões: “É tudo nosso!”, vai poder usufruir de suas riquezas, com mais escolas, hospitais, estradas, saneamento básico e tudo o mais que torna um país civilizado?”
Nada mais fácil do que carimbar o bem de outros com o nosso nome. E o Chaves, espertalhão, já mandou técnicos da estatal venezuelana para substituir os técnicos da Petrobrás (não há técnicos bolivianos capazes de operar os bens desapropriados da empresa brasileira). Valeu, Morales, agora não é mais dependente dos brasileiros, mas sim dos venezuelanos – qual a diferença? É dependente do mesmo jeito.
Será que nunca passou pela cabeça dele uma negociação do tipo: ok, Petrobrás, vocês ficam aqui, mas treinam meus técnicos, que deverão fazer parte chave (não Chaves) da sua equipe? Algo que a longo prazo traga benefício para os dois lados? Mas para que negociar? Não cria alarde, não dá manchetes e, por isso mesmo, não dá votos. Acontece que quando o Morales terminar seu mandato, viajará o mundo cobrando caríssimo por palestras em universidades européias e americanas. Em dólares, claro. Enquanto o povo boliviano continuará sem escolas, saúde e pobre.