segunda-feira, janeiro 29, 2007

A Gravação de Enquanto a Trégua Não Vem

Cena 1: Gutje, André e Philippe ensaiam novamente. É o ano de 2000, último do século XX, e os três músicos estão em Brasília, tocando pela primeira vez juntos em mais de 8 anos. Philippe veio dos EUA especialmente para a ocasião. O objetivo, fazer uma aparição no Porão do Rock com a formação original da Plebe. Falta o Jander. Nos descansos do ensaio tentamos entrar em contato com ele, que está na estrada trabalhando para o Lulu Santos. Não sabe se vai dar para aparecer. Está duro, quer grana. O pessoal do Porão concorda em pagar a sua vinda e um cachêzinho. Ele vem, mas só vai chegar no dia do show! Os ensaios continuam.

Cena 2: No camarim de um show dos Paralamas em Brasília, o Hebert diz ao André e Philippe que está querendo produzir um disco ao vivo da Plebe e que a EMI topa.

Cena 3: Dia do show, expectativas em alta, Jander chega atrasado para o ensaio final, o primeiro da formação original da Plebe em mais de dez anos. Não vem com uma guitarra, mas sim com uma viola elétrica de dez cordas. Não há tempo para conversarmos, para quebrar o gelo. Passamos algumas músicas e vamos para o show, que é um sucesso.

Cena 4: Reunião da banda na casa do André, dias depois. Digo que não estou interessado na volta. O clima não está bom, há muitos rancores no ar, hostilidades veladas deixam o ambiente pesado. Penso no meu emprego e se vale a pena largá-lo por uma situação incerta dessas. Me convencem que dá para levar as duas coisas. Concordamos em gravar o disco pela EMI.

Cena 5: Um mês de ensaios no estúdio Floresta no Rio de Janeiro, bancado pela EMI. A gravadora quer músicas inéditas, os músicos não conseguem nivelar as expectativas, não conseguem pensar como banda. Gutje atrasa todos os dias. Philippe vai para SP com uma namorada, não volta para o ensaio. Jander não consegue um som satisfatório para sua viola. André preocupado com seu emprego. Não há líder, não há direcionamento.

Cena 6: Hebert visita a banda no estúdio. Quase desiste quando sente o clima. Chegou numa hora em que quase saíamos na porrada. Decide tomar conta da situação, dá boas sugestões, age como um verdadeiro produtor. Conversa com todos sobre tudo. Acalma os ânimos.

Cena 7: Hora da gravação. Hebert arranja amplificadores excelentes emprestados. Eu usei um Ampeg valvulado. O cuidado que tem para ajustar todos os timbres é notável no produto final. Ensaiamos no palco, ele dá recomendações finais.

Cena 8: Duas noites de shows são gravadas no Estúdio A da EMI. Nem quando o disco é ao vivo conseguimos fugir desse lugar! O público é excelente, um dos mais cativos que já tocamos. O Hebert, antes de cada show, sobe no palco, fala com o público. Direciona esse como se comportar. Até na performance do público ele se preocupa.

Curiosidade 1: Como não conseguimos compor coisas novas, gravamos Luzes do Escola de Escândalo e Medo do Cólera, duas músicas que já estavam em nossos planos há muito tempo. Ressuscitamos Voz do Brasil e, ainda, Roda Brasil, uma música rejeitada à época do Mais Raiva.

Curiosidade 2: Para a gravação de Medo, a idéia era ter uma base em loop, tipo Ministry, e a gente tocando em cima. Philippe foi à casa do produtor Chico Neves, a sugestão do Hebert, para compor o loop. Acabou não dando certo – mais por impaciência do Hebert de trabalhar com base eletrônica do que pelo resultado. O Rafael, nosso empresário e, também, do Sheik Tosado, convence a gente de usar o trio de percussão do grupo pernambucano na música. Usamos e quase que a faixa não entra no disco de tanto que erraram e atravessaram o tempo!

Cena 9: Plebe e produtor se desentendem nas mixagens. O primeiro resultado havia ficado muito ruim. Philippe e Gutje entram no estúdio e remixam o show inteiro, o disco cresce, o resultado vocês conhecem.

Cena 10: Vamos para estrada fazer os show! Tudo começa tão bem, que a gente resolve compor um disco de estúdio. Chegamos até a conceber algumas idéias que viriam a se tornar Remota Possibilidade e R ao Contrário.

Cena 11: Jander volta à estrada para trabalhar com o Nando Reis. Declara não estar interessado em rock n roll. Gutje apronta as suas. Plebe termina horas antes de gravar o novo disco.

Lição: Aprenda com o Capital Inicial. Antes de oficializarem a volta, sentaram juntos e lavaram as roupas sujas. Se xingaram, se ofenderam, fizeram terapia em grupo. Focados e com objetivos em comum, gravam novo disco e estouram. A gente se reuniu, após dez anos separados sem um ver a cara do outro, e horas depois já estávamos no palco. Dois meses depois já estávamos gravando. Três meses depois, na estrada e divulgando o disco. Um ano depois não agüentávamos mais nos ver.

Notas finais: É um excelente disco! Capturou com precisão a Plebe ao vivo, com toda a energia e força. Melhor, capturou a sinergia que a Plebe tem com seu público. Que diferença faz um bom produtor! Mesmo com as diferenças de visão e de personalidades, aquela formação da Plebe funcionava muito bem. Os problemas que ocorreram foram de outra natureza, não existindo 100% culpados ou 100% inocentes. O mais importante é que marcou que uhá, uhú, a Plebe está de volta!

22 comentários:

CÍCERO disse...

QUANDO OUVI CÓDIGOS AO VIVO NESSE DISCO FUI AS LÁGRIMAS,FICOU DE ARREPIAR MUN TODO ACHEI MUITO PRODUZIDO PARA UM DISCO AO VIVO APESAR DE GOSTAR DE TODAS AS MÚSICAS ESPERAVA UM DISCO MAIS CRÚ MAIS VALEU A PENA ...
WWW.SOOFIM2005.BLOGSPOT.COM

conhecido disse...

Fala André Müller!

Descobri o seu blog por aí.

Muito bom esse seu ultimo artigo. Essa foi uma ilustração altamente sincera, honesta e realista, de como as coisas funcionam nos bastidores. Isso chega a ser de interesse antropológico, pois vemos como as coisas realmente são. O resto é publicidade de press release.

Parabens

Gabriel disse...

sensacional,só isso,saber mais um pouco de um dos melhores discos que eu tenho é sempre bom :)

abraço andre

Anônimo disse...

Produtor é tudo mesmo. Acho que os Plebeus deveriam pensar num produtor gringo para o proximo disco.

F3rnando disse...

Vi esse show no Abril Pro Rock, sem comentários. Lembro que assisti um show, que precedia ao da Plebe, da mesa de som, onde o Phillipe também via o show.

Marcelo Rocha disse...

No primeiro dia de gravação, lembro-me do Herbert chamando vocês ao palco: "A maior banda que saiu da casa do André Müller: PLEBE RUDE".
Lembro-me do Jander implicando com o Phillipe, ao dizer, num dado momento em que ele trocou de camisa, que o mesmo estava "trocando o figurino" (gargalhada geral).
No mais, a platéia gritava que o Philippe estava "malhando", que o X estava chorando, que tocassem Clash, dentre outras coisas.

Fábio disse...

Meu primeiro CD da Plebe. Foi com ele que eu conheci a banda(depois eu descobri que meu irmão - mais velho - tinha, em fita K7, o Concreto e o Nunca Fomos, guardados no armário. Foram devidamente expropriados sem indenização, hehe)

Ouvi tanto que ele hoje ta todo arranhado.

Gosto muito e acho que, no final das contas, a viola do Jander se saiu muito bem.

Anônimo disse...

CARLOS LOPES, GURU DE MERDA METAL, MORRA!
VOU ARREBENTAR A TUA CARA E QUEBRAR TEUS DENTES.
VÁ FAZER MÚSICA PRA TRAVESTI E SOME DA MINHA FRENTE, SEU "BOM CARÁTER" DE MERDA!
VÁ CHUPAR O CU DA SUA MÃE, A PUTA VELHA DA LINDAURA!

Anônimo disse...

VCS QUEREM SABER A HISTORINHA COMPLETA? MINHA BANDA É TRIO E PONTO FINAL, NÃO TEM DISCUSSÃO A ESSE RESPEITO!

André X disse...

Anônimo do metal. Cara, dá um tempo, esse espaço não é para isso e tenho certeza que os leitores não estão interessados. Agora, se for importante mesmo, abra um blog para discutir o assunto, que eu dou uma força na divulgação dele. Falou?

João disse...

Um produtor que acha Midnight Blues (banda cover formada por membros do Kid Abelha e Barão)melhor que De Falla?! E esse cara ia produzir um disco de rock? Que diabos houve nessa mixagem do Herbert?! Comente sobre o piratão ao vivo do Rock in Rio nº IIIVVLLL. A banda está tocando as músicas como se o mundo fosse acabar ao final desse show.

João disse...

Mais: o Concreto é o melhor, mas o Nunca fomos tem um valor sentimental pra mim que não sei como expressar, talvez ali fosse a banda rezando para os seus fiéis, usando ao contrário uma imagem da letra da multi-interpretada "Mentiras por enquanto".
Lembro-me do André falar na Mtv que o Herbert era bom produtor porque ele levava bons vinhos pro estúdio, o que todo bom produtor deve fazer.
O terceiro disco foi um ótimo passo dado pela banda, não vejo qualquer erro. O problema foi não ter seguimento, pra dar coesão no trabalho, tipo o Radiohead vem fazendo. O que me espanta e me diverte na humanidade é que há gosto pra tudo, até pra achar MRDQM o melhor disco da Plebe. Se eu tivesse muita grana, eu teria contratado a melhor equipe de terapeutas para cuidar dos caras da formação original da banda. Eles ficariam trancafiados em uma casa e seriam obrigados a conviver ali até se acertarem para uma nova gravação, que no caso seria a do disco ao vivo. Mas isso já passou. E a gravação de "R ao Contrário"? Ah, e foda-se o Gutje.

Anônimo disse...

Em certos casos, ficar trancado numa casa, fazendo terapia de grupo, isso não adianta.

Essa terapia adianta quando a coisa é apenas psicologica. Porém, quando se trata de pilantragem, roubo e traição barata, então a terapia tem que ser feita na justiça, diante de um juiz.

Não sei se esse é o caso dos plebeus e capitais, mas em outros casos isso acontece sim. Em certos casos, não se trata apenas de estar de saco cheio e de implicancia um com o outro, mas sim um caso de policia.

RickAlencar disse...

André, se vc acha que algumas músicas não saíram do jeito que deveriam, pq não ir incluindo nos novos cds, tipo como bonus, acho que seria bom.
Um outro lugar no Enq a trégua não vem, ficou divino.

Dênis disse...

Ouvi "Trégua" sem parar por quase um ano. Agora, homeopaticamente.

Anônimo disse...

Esse álbum merece o Prêmio Chico Xavier pelo nome do álbum Enquanto a trégua não veio....rss

Anônimo disse...

caso de polícia, é perdedor histórico como o guru de merda metal querer se meter em banda dos outros pra roubar material alheio. que viado perdedor, vá fazer sua própria banda em vez de ficar galanteando traveco, carlos lopes.

MANUEL /SALGADO-SERGIPE disse...

Um dos melhores discos já produzido pelo rock nacional.

COM TODA CERTEZA!

Anônimo disse...

Philippe e Gutje entram no estúdio e remixam o show inteiro,...???????????

não acredito , pode explicar isto direito André?

Fernando Perini

Luciano Vndalo disse...

eu estava na gravacao cantando tudo e gritando sem parar !! foi emocionante tudo q vivemos naquela noite !!!!!

um amigo meu chamado ALEXANDRE PLEBEU alugou 2 vans e a baixada fluminense se fez presente nesse show historico a minha voz esta em 3 momentos antes das musicas serem tocadas pq chegamos cedo e eu vi o set list colado no palco e copie pra saber a ordem das musicas !!!

depois do show todos foram ao camarim tirar fotos e levar os vinis pra autografar !!!

eu tinha um rastafari e estava usando uma camisa do inter de porto alegre e eu e andre conversamos um pouco sobre futebol e ele me disse q torcia pro GAMA !!

e ainda conheci o irmao do phellipe q desenhou o congressinho!!!

foi foda !!!


ainda fomos no show de lancamento do cd no canecao super lotado e mais uma vez invadimos o camarim !!!!


ainda me emociono mesmo tendo tbm visto os shows da epoca do nunca fomos, do plesbicito e do mais raiva !!!

MANUEL /SALGADO-SERGIPE disse...

É AQUELE QUE GRITA "PUTA QUE PARIU"! NO COMEÇO DE PROTEÇÃO?

Jairo disse...

Definir uma palavra pra esse CD eh pouco! Eh muito foda! Ouço no volume maximo!
OBS: So faltou um DVD, ne?