quinta-feira, maio 15, 2008

Joaquim e o Trem Fantasma

Joaquim sempre se destacou pela sua inteligência. Se bem que seus pais adorariam que ele fosse, digamos, normal. Provas e testes escolares não eram um problema. Todos seus professores reconheciam a potencialidade do garoto. O problema, de acordo com eles, era que as matérias pouco interessavam ao Joaquim, que passava em tudo com notas brilhantes, porém demonstrando um distanciamento enorme. Escola, estudos e bom comportamento eram um tédio para ele, como se fosse uma dorzinha que se aprende a conviver.

O uso de seu brilhantismo intelectual era usado com entusiasmo para outro fim. Não que fosse para o mal, não havia traço de maldade em sua personalidade. O negócio era testar os limites, desafiar a sociedade, ganhar do status quo. Assim como fazer experimentos em colegas envolvendo choques disparados por um “magiclik” roubado da cozinha de casa. Pimenta no focinho de cachorros. Ir para uma loja de departamentos e acertar todos os despertadores em exposição para dispararem na mesma hora. Reprogramar elevadores. Não havia limites para suas estripulias.

Sua escola planejou uma ida ao Parque Nicolândia. Joaquim e seus outros colegas da quinta série entraram no ônibus escolar discutindo animadamente qual o brinquedo favorito de cada um. Ele reparou que todos ainda tinham um certo receio do trem assombrado. Obviamente Joaquim sabia que aquilo eram apenas bonecos mecânicos cobertos com plástico e papel. Anunciou a todos que iria entrar lá sozinho e fazer o feitiço virar contra o feiticeiro. Iria fazer o brinquedo assustar o próprio dono, seja lá que fosse o dono do Nicolândia.

Chegando ao parque, aqueles que ouviram sua bravata, conhecendo sua potencialidade, seguiram-no até a entrada do trem fantasma. O sujeito que vendia entradas estranhou que dos quinze moleques que apareceram, somente um comprou ingresso. Nem notou que esse, quando subiu no vagão, carregava um rolo de papel higiênico e uma garrafa de água. Todos observaram em silêncio o vagão desaparecer pela porta pintada com motivos de caveiras com o Joaquim sentado imóvel em sua cadeira.

Uma vez dentro do brinquedo, Joaquim não perdeu tempo. Começou a fazer bolas de papel higiênico, molhando-as com bastante água. Na primeira curva, uma bruxa. Joaquim arremessa e acerta em cheio o torpedo molhado pela boca escancarada, que cai nos fios expostos do controle e provoca um pequeno curto. A bruxo balança como se estivesse em convulsão e apaga. Joaquim sorri marotamente.

O trem vai seguindo lentamente seu percurso e Joaquim bombardeando todos os habitantes da casa. Alguns ele erra. Alguns, acerta em cheio. O Frankenstein leva uma bolada no olho que causa algumas fagulhas maiores. Essas caem na lona sintética que é usada para cobrir o teto, um material altamente inflamável. Em menos de um minuto, a construção que abriga o trem fantasma está em chamas. A eletricidade cai, todos os mecanismos do brinquedo param. Só não fica breu porque as labaredas iluminam de forma lúgubre o interior da casa assombrada.

Joaquim leva um susto inicial, mas logo se recupera. Entende o que aconteceu, sua culpa claro. O jeito é seguir os trilhos até a saída, antes que fique impossível se movimentar no interior do incêndio. O calor aumenta, fica empapado de suor enquanto prossegue. Usa o restante da água para molhar seus cabelos, evitando que queimem. Quando vira a curva e entra num corredor escuro, seu coração dá uma parada e em seguida dispara. Sabe que é um boneco, mas no contexto está muito realista. Um diabo, todo vermelho, chifrudo, com uma expressão maléfica, segurando um tridente vermelho, cercado de chamas, olha para o garoto fixamente. Seu dedo parece que está mexendo, chamando o menino para perto de si. Deve ser um jogo de sombras, justifica Joaquim, tentando se acalmar.

A figura satânica parece que ganha vida com a parede que desaba, revelando mais chamas e fumaça. Joaquim começa a se sentir tonto. Vê o diabo vindo em sua direção. Devo estar alucinando com a falta de ar, diz para si mesmo. Quando sua cabeça começa a rodar, uma tontura enjoativa tomando conta, aparece um bombeiro e puxa o menino pela gola, arrastando-o para fora.

Os colegas de Joaquim juntam em volta do bombeiro que realiza respiração boca-a-boca para reviver o garoto. Com sucesso, depois de vomitar todo o chão, está respirando normalmente. O dono do parque vem ao seu encontro, ver se está bem.

“Muito realista aquele boneco do diabo!”, comenta o Joaquim.

O dono sorri para o gerente, feliz que ninguém se machucou e que o brinquedo está no seguro. Quando se afastam, o gerente afirma, coçando a cabeça confuso: “Mas nós não temos nenhum boneco de diabo no trem fantasma!”

9 comentários:

Renata disse...

Finalmente, um conto! Estava sentindo falta...

João disse...

Ficou legal. André em seus dias de José Luiz Borges ou Stephen King.

Anônimo disse...

faltou um pouco de molho coprófago para o conto ficar realmente saboroso. abs

João disse...

corrigindo: Jorge Luis Borges

fabia disse...

Pode nao ter sido uma visao, mas simplesmente o arrependimento assumindo uma forma real na realidade imaginária do Joaquim.

Forma interessante essa de testar limites e conhecer as fronteiras do mundo... Sempre associei essas atitudes destrutivas a traços essencialmente egoistas, self-centered... Mas muita gente que na minha infancia gostava de matar passarinho com estilingue hoje em dia eh gente boa... Serah que amadureceram ou serah que mudaram sua indole? Ou serah que a escondem a sete chaves?

Gostei muito do conto, André.

Anônimo disse...

Analisando a psicologia do conto, eu diria que o Joaquim representa a rebeldia do jovem contestador que não quer se aceitar o esquema ou sistema da sociedade. Então ataca o poder, aquilo que todos tem medo.

Contudo, Joaquim descobre que realmente existe uma grande força maligna na parada. Assim enfrenta a desgraça do diabo e a propria morte.

Finalmente, Joaquim aprende a lição e se enquadra. Se conforma e se entrega. Aceita o sistema e integra a sociedade que criaram para ele.

Anônimo disse...

E muito alem do que anonimo (de cima).Acho que por tras de tudo a um medo!

DR

Anônimo disse...

esse txt parece fábula de hiptonismo galináceo, coisa pra assustar criança e deixa-la quieta e assustada num canto. grandes merda!

Anônimo disse...

parece aqueles telecontos com teor terror (terrir?) que eram exibidos no o povo na tevê, no sbt old school! LIXO