terça-feira, março 01, 2005

BOBOS-DA-CORTE

Hoje o Uruguai está em festa. A posse de Tabaré Vázquez leva o povo à rua para comemorar a quebra de alternância no poder entre os Colorados e os Blancos, após longos 180 anos. Detalhe: nunca, na curta história democrática do Uruguai, houve manifestação popular na posse de um presidente eleito.

Como em toda festa que se preze, foram convidados os bobos-da-corte. Um, o Presidente Chaves, da Venezuela, aceitou, claro. Ele não perde uma boca-livre e a oportunidade de dar o fora do clima hostil que está seu país. Outro, o Fidel Castro, está doente, não vai poder visitar o mundo livre. Reparem que essas duas figurinhas carimbadas dão o toque em todas as festas públicas com cunho político realizado na América Latina. E porquê bobos-da-corte? Leiam abaixo.

Certamente vocês já viram filmes ou leram livros sobre as festas dos reis medievais. Sabem aquela figura, com o chapéu de três pontas, fazendo gracinhas o tempo todo? Pois é, esse é o bobo-da-corte. Sua origem é islâmica e sua missão era fazer imitações grotescas dos nobres para que todos refletissem sobre a incongruência, a subjetividade, do ser humano. De um site: “suas atitudes contrárias, que numa hora o levam a uma direção, noutra o conduzem a uma direção totalmente diferente, muitas vezes até em sentido contrário. Essa é a finalidade essencial, primitiva, dos ensinamentos do bobo da corte. Levar uma sabedoria psicológica por meio do riso, das alegorias subjetivas, das pantomimas, do hilário”.

Fidel e Chaves são assim. Não é que os líderes latino-americanos gostem deles ou se identificam com suas trapalhadas políticas. É que, estando presente nas ocasiões importantes, servem para que eles reflitam sobre as bobagens que os dois fizeram nos respectivos países e não cometam as mesmas atrocidades durante seus mandatos.

Os reis caíram e os bobos-da-corte foram substituídos por figuras históricas contemporâneas, porém o objetivo permanece o mesmo: fazer refletir. Na França, após a queda da Bastilha, os ricos poderosos chamavam vagabundos imundos para participar de suas festas. Na década de 1960, membros dos Black Panthers eram convidados a freqüentar – e iam! – festas da alta sociedade. No início do movimento punk, alguns também freqüentaram como convidados especiais festas desse porte.

Aqui, onde a festança com o dinheiro público nunca tem fim, o mestre-de-cerimônias do momento, Severino Cavalcanti, quer porque quer ministérios para seu pseudo-partido, o PP. Até o governo palestino, cercado por fundamentalistas radicais, de um lado, e israelenses vingativos, de outro, ao montar seu ministério, optou pela escolha de pessoas técnicas, capazes de administrar com perfeição a pasta, mais de metade com doutorado. Aqui, no Brasil, não. O perfil técnico pouco importa, o político vale tudo.

A festa continua, e adivinha! O bobo-da-corte é você! Só não espere reflexão por parte dos nossos políticos, eles estão muito ocupados se divertindo, enchendo a pança e os bolsos para tomar conhecimento da falta de saúde e de segurança, educação precária, infra-estrutura decrépita, desemprego e outros detalhes que estão além de sua área de atuação.

2 comentários:

Anônimo disse...

André, não consigo ter uma visão tão ampla de política como vc mas o texto me levou ao seguinte um pensamento: o conformismo do povo em ser o bobo-da-corte, desde que seja dado paõ, leite, lote, gás, bolsa-escola e derivados.
Panis et circense... trate o povo com pão e circo,e se possível, deixe ele er o palhaço também...

Anônimo disse...

André, não posso entrar a fundo no assunto, pois não tenho profundo conhecimento das personagens e fatos do texto. Mas passei um bom tempo, gritando contra os políticos (e continuo), mas hoje acho que o problema vem da base...da sociedade, seja qual for a classe, existem pessoas honestas (acredito que uma grande parte), mas essa esta conformada, (em sua grande maioria), ao contrário da banda podre que está ativa e lutando pelo poder.
Existem deputados (acredito que em sua grande maioria) corruptos, como existem trabalhadores corruptos (Compram artigos roubados, trapaceiam para subir de cargo, etc.). É lógico que o segundo grupo foi afetado pela onda de impunidade que assola as terras brazucas, mas é necessário recuperar essa gente antes que o grande mal da soberba os consuma.