segunda-feira, fevereiro 25, 2008

1986: Mico em Lins

O show era em Lins, interior de São Paulo. Fazia parte da turnê roubada do Nunca Fomos tão Brasileiros. Acho que já contei isso aqui, quando lançamos o segundo disco, um empresário picareta propôs uma turnê por todo interior do estado. Assim que chegou às lojas, já saímos de ônibus fretado para Piracicaba. O negócio dele não era promover a banda, mas sim lavar dinheiro. Não vimos praticamente nada, após 28 shows! Tentamos processar o cara, mas, como todo pilantra nesse país de tolos, não tinha nada no nome dele.

Mas a história não é sobre isso, mas sim sobre bebedeiras. Lendo o Hammer of the Gods, que conta a trajetória do Led Zeppelin, cheguei à conclusão que algumas baixarias da estrada devem vir à tona. Quem melhor que contar isso do que os envolvidos? Então vou divulgar algumas da qual participei, preservando o nome dos inocentes e culpados.

Voltando à Lins, show num clube, piso de madeira, palco baixo. Último show da turnê. Antes de entrar no palco, o Jander e eu dividimos uma garrafa de Johnny Walker Red, enchendo os respectivos copos até a borda. O desafio era: quem beberia o conteúdo primeiro. E assim entramos no palco, cada um com seu copo na mão, que depositamos em cima dos respectivos amplificadores.

O show foi correndo e, lá pela metade, o Jander aponta para um copo quase vazio em cima do seu amp. Crente que era o copo dele, olhando para o meu quase cheio, empolgado pela música e pelo público, viro tudo de uma vez, segurando para não vomitar. Pronto, tinha ganho do Jander! Virando para curtir da cara dele, vejo que tinha sido enganado! O verdadeiro copo do Jander estava escondido atrás do amp, aquele lá em cima sendo o de água. Agora já era, os efeitos começaram a surgir.

Lá pelo fim do show, pego meu baixo e dou de presente para um sujeito na primeira fila. O Fred, nosso roadie, quase tem que brigar com uma dúzia de pessoas para pegar o instrumento de volta. Partimos direto para uma churrascaria para comemorar o final da turnê e o Johnny correndo meu senso de ridículo. Quando chegamos no restaurante já estou mais para Mr. Hyde do que o Dr. Jeckle. Pego uns tomates inteiros e começo a atirar nas outras mesas, entre outras idiotices da qual me envergonho até hoje.

Como após a euforia vem a depressão, depois do jantar, todos vão comemorar em outro lugar. Sigo junto, mas para minha surpresa, o pessoal me joga no porta malas de um Corcel II. Deitado junto com o pneu estepe, o cérebro pedindo arrego, no escurinho, acabo dormindo.

De repente acordo com a maior música! É que ligaram o som do carro. Com os auto-falantes à centímetros de minha cabeça, parece que estou no inferno sonoro. Sem pensar, começo a puxar tudo quanto é fio e furar tudo quanto é papelão. Surgiu efeito, o silêncio prevaleceu.

Tem uma hora que me tiraram do meu leito, me enfiaram no ônibus, e quando acordo, já estamos chegando em Congonhas. Estou todo sujo, camisa amassada com um telefone escrito à caneta (para o qual eu nunca liguei, nem sei como foi para lá) e a cabeça pulsando mais que a Timabalada em um dia de sol em Salvador.

Nunca mais vou beber!, prometi, esquecendo logo em seguida.

14 comentários:

Anônimo disse...

André acho o máximo você compartilhar conosco estes momentos ÍNTIMOS da PLEBE RUDE mas como você disse no início são coisas que só quem cai na estrada com banda (sei bem o que é isso) quem sabe........
Ansiosamente aguardo mais CURIOSIDADES
CARLOS RATO

(?) disse...

não entendi... se o cara fala de política, neguinho mete o malho e fala que o cara tem que falar da banda. se o X fala da banda tem que ser de um jeito que agrada a todos.

kiloton disse...

Esse é o ritual de iniciação do feiticeiro. Tem que ir no inferno e voltar. Estrada tem dessas coisas.

Quanto ao primeiro comentario, parece existir um certo rancor, nutrido pela inveja. Porém, num ponto tem razão. Não é só quem cai na estrada com banda, mas tambem com cigano, artista circense, hippie maluco e parada de corrida. Isso sem falar que pileque acontece em qualquer lugar.

De qualquer modo, quem nunca teve a oportunidade de cair na estrada, não precisa se sentir frustrado. A estrada pode ter o seu romantismo, mas nisso existe um lado muito ruim tambem. A realidade é sempre diferente da fantasia.

A sensação de não ter uma raiz, de viver sem um ninho ou sem refugio seguro, largado em roubadas na casa do caralho, isso é terrivel. Isso impede a pessoa de dormir, comer e cagar regularmente.

Chega num ponto em que no meio da viagem dá aquela fobia saco cheio de querer chegar logo, o infeliz fica contando os minutos e quilometros. Tudo isso para chegar num lugar estranho e imprevisivel, que quase sempre é bem diferente do que se pensava.

Uma das coisas mais importantes que se aprende na estrada é o real significado do "lar doce lar". Viajar é muito bom, mas depois de um tempo isso cansa o esqueleto. A saude fica debilitada.

Isso sem falar dos mil exus e pomba giras, das encruzilhadas do caminho. É tentação atrás de tentação. Roubada atrás de roubada. Para lidar com essas forças, sem se acabar, é preciso ser feiticeiro e ter o corpo fechado.

kiloton disse...

Mas, voltando ao assunto, esse negocio de alcool é parada séria.

Certa vez, acordei e vi o meu carro de porta aberta, todo batido, no meio do cerrado. Nisso o sol na cara me cegou, enquanto a minha cabeça latejava que nem bate estaca de trance. Estava caido numa poça de vomito, ao lado de um formigueiro. As formigas haviam me mordido da cabeça aos pés. Me senti como um cadaver desovado, minha boca estava cheia de formigas. Fiquei com uma tremenda beiçola inchada.

Jaime disse...

divino, fui eu que anotei o telefone do pitanguy dos cUbaços, depois de nossa noite de amor.
ahahahh

muito bom isso!
abraços

Jaime disse...

ainda bem que não bebo...
abraços

João disse...

No Porão do Rock 2005 me lembro que o André também tinha em cima do amplificador ao seu lado um copo de whisky (ou seria guaraná?). Mas acho que dessa vez ele bebia bem devagarzinho, no fim do show ainda sobrava.

Anônimo disse...

Não é atoa que Aerosmith é famoso por ser a única banda milionária não milionária. Gastaram o equivalente a um aviaão em drogas e bebida.

Depois que percebi que álcool é desperdício de dinheiro minha vida se tornou bem mais fácil. Sou maluco demais pra precisar de um estímulo desses.

Paulo Henrique disse...

Esqueci de assinar /\

Elizabete disse...

Muito bom...
Por isso não misturo show com bebidas...apesar de só assistir os shows...rsrsrs
beijos...

Jaime disse...

eu nem tenho dito tempo pra engolir minha própria saliva, qto mais perder tempo com birita... abraços

Jaime disse...

dito nao, ops
TIDO
valeu

Anônimo disse...

esse negocio do aerosmith é lenda, um avião em cocaina é coisa p. vida toda....

dunha disse...

pior ou melhor q o aerosmith é o eagles!