terça-feira, fevereiro 26, 2008

1986: Mico em Santos


Longe de mim promover ou incentivar o uso do álcool ou outros entorpecentes. Acho deplorável bandas que fazem uma bandeira do quão “loucos” são. O rock não precisa de clones de Keith Richards. A idéia aqui é contar alguns “causos” da Plebe on the road. Não tentem fazer nada disso em casa!

Em 1986, Siouxsie & the Banshees tocou no Brasil. Naquela época, nem mosquito estrangeiro se apresentava em terras tupiniquins, quanto mais uma banda que admirávamos. Nos convidaram para abrir os shows em Sampa e o Ira! os no Rio de Janeiro. Pegamos o filé, seriam duas apresentações em São Paulo e uma em Santos. Até hoje me lembro da frustração do Dado, querendo muito que a Legião tivesse sido convidada, mas sabendo que o Renato não queria dar shows....

Bom, lá fomos nós, esquema Vip e realizando um sonho. Particularmente para mim, que era seguidor assíduo da banda inglesa, conhecendo todas suas músicas, lados-bs e sessions do John Peel. Primeiro foi muito frustrante, pois os Banhsees não queriam papo nem contato com a Plebe. Quando eles transitavam back-stage, a gente tinha que ficar trancado no camarim. Os dois shows em SP correram assim, sem nem contato visual, a não ser deles no palco.

Logo de cara, nossa equipe se desentendeu com a deles. Coisa de roadie, de querer marcar território e, claro, tirar vantagem para a banda que representavam. Então, um empurrãozinho no amplificador alheio já é motivo de porrada. Tinha um roadie deles que vestia uma camisa listrada, um gorro e calças muito apertadas. Foi logo apelidado de Querele e o Fred quase saiu no tapa com ele. No entanto, era muito profissional.

Em Santos, o jogo se reverteu. A cidade era nossa praça favorita nos anos 80s. Quando a gente subiu no palco, o público veio abaixo. Foi uma de nossas melhores apresentações de todos os tempos. Tão boa que, quando os Banshees tocavam, o público continuava a gritar Plebe! Plebe! Isso impressionou os gringos, rendendo um convite para vê-los depois do show.

Eu estava com a adrenalina toda, conhecer seus ídolos já deixa uma pessoa numa espécie de “alto” natural. Ainda mais, no camarim, tinha duas garrafas de conhaque de champanhe, que eu e o Serverin cuidamos de secar. Esse mistura – excitação, adrenalina, endorfina e álcool – subiu que é uma beleza!

Chegando no hotel, de madrugada, não parava de importunar os hóspedes que fugiam de medo do músico doidão no saguão. Quando a equipe dos Banhees chegaram, contratei verbalmente o Querele para trabalhar para a gente, deixando os nossos roadies indignados. Lentamente, minha namorada, que acompanhava todo o mico morrendo de vergonha, conseguiu me enfiar no elevador.

O Nicolau, nosso fotógrafo número uno, fotografou tudo. Se ele estiver lendo e tiver uma foto desse vexame digitalizada, posta aqui. Se não, fica na imaginação de vocês.

24 comentários:

kiloton disse...

Essas suas estorias, não sei porque, me fizeram lembrar o Fred.

Para quem não conheceu, Fred era careca alto e dentuço, sempre usava calça "pescando siri", coturno polido e suspensório. Foi um dos primeiros a usar uniforme de "kareka".

Cabra macho e valente, tambem bom de porrada, Fred era feio p/ cacete. Era temido pelos playboys. Os mauricinhos morriam de medo dele.

Porém, apesar da aparecia medonha de skinhead, era totalmente do bem Fred era "nazi punk fuck off", adorava Dead Kennedys.

Admirava a lealdade e empenho do Fred na Plebe. Ele amava a parada. Viamos ele como um membro da banda, parte de suma importancia.

Tenho muita estima e consideração pelo Fred. É da mesma nobre estirpe do mestre Feijoeiro. O cara me ensinou muita coisa. Era do tipo que gostava de ajudar os novatos. Além disso, era justiceiro, defendia os fracos e oprimidos.

João disse...

que fim teve esse Fred? era ele que aparecia nas fotos do encarte do vinil do Nunca Fomos?

Elizabete disse...

Adoro ler esses micos...

André X disse...

Fred, hoje, trabalha com os Titãs e tem uma pensão para surfistas em Santa Catarina que só abre no verão. Era um sujeito muito bacana mesmo, porém com uma personalidade explosiva (que parece que já amadureceu). Era como um quinto membro da Plebe.

Anônimo disse...

X, conte tbm sobre as drogas ilícitas.

André X disse...

Drogas ilícitas, tipo RPM, Rita Lee e CapIn nunca foram consumidas pela Plebe....

eduardo disse...

X me responda uma coisa se vc puder, por que o Renato Russo não gostava se fazer shows? valeu.

João disse...

E o Severin, também ficou trolado com o mé?

Anônimo disse...

X esse show de santos vocês tem PELO MENOS EM K-7 para postar aqui?
RATO RUDE

kiloton disse...

Acho que o X não vai querer falar o que deveria ser dito pelo finado Manfredini. Porém, eu acho que posso falar alguma coisa.

Na minha humilde opinião, acredito que o Renato não gostava porque show estressa a pessoa. Melhor mesmo é ganhar grana com direitos autorais e vendagem de disco.

Certas vezes os bastidores e camarins ficam cheios de urubus e papagaios de pirata. Os fãs as vezes enchem o saco. Isso sem falar que, é normal no Brasil, rola com todo mundo, as vezes aconteciam micos e roubadas com eles tambem.

A pior roubada, com certeza, foi o tragico show no mané garricha, em Brasilia, onde alguns jovens populares morreram pisoteados.

Sei que o Renato ficou muito chateado com isso. Por coincidencia, depois desse show de horrores, ele começou com esse negócio de não querer mais tocar em show.

No ponto de vista do Renato, acho que fez muito bem. O problema é que isso criou uma certa crise na banda, pois os outros não recebiam tanto assim em direitos autorais. Precisavam mais dos shows para ganhar grana e se sustentar no Rio.

João disse...

eu acho que o Renato Russo não gostava de show porque achava a banda de apoio dele muito ruim, muito fraquinha, guitarrista, baixista e baterista.

Kiloton disse...

João,

Eu discordo. O Renato sabia que a alma da Legião tambem estava com os outros. Alias, a Legião não era somente o Renato. Os outros tambem tinham a sua importancia.

Tudo bem, o Bonfá não era nenhum Terry Bozzio, nem o Dado era um Steve Vai. Porém, o bacana da Legião era essa simplicidade.

O melhor musico ali era o Negrete, ele criava um estilo para a banda, mas ainda assim não era nenhum Stanley Clark. Com a saida do Negrete, apesar de terem colocado um baixista profissional, talvez até melhor do que ele, a coisa meio que se perdeu e a Legião entrou numa certa decadencia.

Posso afirmar que o problema não era esse. Mesmo que o Renato tivesse uma banda com os melhores musicos do mundo, ainda assim ele poderia não querer fazer show. Muito melhor é ganhar dinheiro enquanto se dorme bem, ganhando a=em cima dos direitos autorais e vendagem de disco.

É o que eu disse: esse negocio de show estressa a pessoa. Isso é uma responsabilidade em que a pessoa nem consegue dormir direito. Sempre acontecem imprevistos, problemas e roubadas.

kiloton disse...

Já que o André dá corda, já veio aqui dizer para mim escrever a vontade, vou colocar um ponto que consumidor nenhum consegue enxergar.

Não sei como é o esquema da Plebe hoje. Acredito que X e seus cumplices já são gatos escaldados, se tornaram cascudos e calejados, talvez não se metam em tantas roubadas, não se preocupam mais e nem precisam ensaiar.

Contudo, a noticia de um novo show sempre aperta algum botão no artista. Não digo que cause correria e desespero, em certos casos sim, mas isso sempre ativa aquela preocupação cronica, bem no no fundo subconsciente da caixola. Sempre haverá alguma coisa a ser pensada e planejada

De qualquer modo, o que eu quero dizer aqui é que dar show é sempre a parada mais dificil que o musico tem que enfrentar. Alem da adrenalina e nervosismo de se apresentar, coisa que bate em qualquer um, até mesmo em nêgo experiente, isso é um compromisso sério, coisa que sempre dá trabalho, preocupação e stress.

O trabalho não é só se dirigir ao desconhecido, pegando veiculos que podem cair e bater. Existe uma tensão, uma preocupação prévia. É preciso ensaiar, estar preparado, e ainda consertar os erros e problema do show anterior. As vezes, quando o show é importante, o cara começa a se preocupar meses antes. Alguns não conseguem dormir direito.

O stress mesmo é o compromisso inadiável da execução e degola do produto. Se a pessoa estiver com algum problema, se tiver diarreia, gripe, ou mesmo se estiver mal humorado ou simplesmente sem saco, FODA-SE. O músico é obrigado a comparecer naquele local, hora e data marcada, seja lá como for.

Por isso sou fã do Tim Maia. Ele foi um dos poucos a jogar tudo isso para o alto. Tim Maia sim tinha atitude punk. Se ele não estivesse afim, não ia e pronto. Sim, isso dá prejuizo para os vendilhões do templo, mas para isso existe o direito de justiça e cuidados na elaboração contratual desses shows.

Falta de respeito ao publico? Não sei, pois o publico tambem não respeita nada, só pensa no interesse proprio. A inspiração e liberdade do artista, isso para o publico não existe. O publico não quer saber se o artista quer se apresentar ou não. O publico quer consumir o produto, como se isso fosse uma galinha comprada na feira.

Nessa questão Tim Maia, a mais radical de todas, o publico só tem direito de receber o seu dinheiro de volta. Comprar a alma, o saco e a inspiração do artista, isso eles não tem direito.

No caso do Renato então, se ele recebia uma boa grana de direitos autorais, para que se estressar todo, arriscar a vida, cair em roubada e pagar mico? Ora, se o publico quer consumir o astro do rock, então que vá comprar o disco.

Para quem gosta da oportunidade de estar junto do artista, ao vivo, é preciso tambem respeitar a vontade dele. Tem artsta que gosta de tocar ao vivo, mas para todo mundo existe um dia em que não se está afim de trabalhar. Então, tem que ser na paz. Se tiver que fazer obrigado, de modo mecanico, de mau humor, então é melhor adiar o show e devolver o dinheiro do publico.

eduardo disse...

Kiloton, valeu cara pela resposta, sabe cara tem hora que fico penssando sobre esse negocio de grana nas bandas de rock,nacional, pois parece que qualquer dupla sertaneja guanha mais do as bandas de rock, sendo que a importancia nem se compara né, o que vc acha? valeu.

dunha disse...

esse kiloton é uma especie de paulo marchetti, testemunha ocular da historia!

João disse...

ou então: chuta sem medo. Acertar o gol é outra coisa.

kiloton disse...

Eduardo,

Para mim, os fatores que fizerem a diferença foram o seguinte:

Primeiro, publico de rock, especialmente o punk, é feito de jovens estudantes, urbanos e duros, enquanto o sertanejo tem uma media de idade um pouco maior, de gente que, bem ou mal, trabalha e ganha algum dinheiro. O publico sertanejo vai do jovem peãozinho boiadeiro ao velho coronel usineiro.

O rock, pelo menos antigamente, era parada maldita que nunca tocava no radio ou na TV. A maioria dessas bandas nacionais surgiram devido a uma unica radio, a radio Fluminense. Depois veio a MTV. Isso foi tudo que o rock teve para formar o mercado de hoje.

Antigamente, p/ o cara entender de rock, ele precisava morar na cidade grande. Precisava comprar revistas e discos importados. Isso tudo era bem mais dificil, era parada underground.

Já no interior, todas as radios do só tocavam sertanejo (e só tocam isso até hoje), não tocavam rock. Para o zé rural se tornar rockeiro, ele precisaria ir até a cidade grande, p/ ouvir uma radio decente, p/ comprar discos, ler revistas e se informar. Lá na roça a informação não chegava. Ou seja, foram as radios do interior, a unica midia que rolava por lá, que criaram os sertanejos.

Assim formaram um grande mercado. Bruno e Marrone toca em todas as radios do interior, enquanto a Plebe não. Como é que o peão boiadeiro vai conhecer a Plebe? Como é que a Plebe vai formar mercado na roça?

Enfim, os sertanejos tinham, ainda tem, uma especie de mafia independente só deles, coisa que incluia diversos selos, milhares de radios e circuitos de show. Para tocar, eles tem os tradicionais rodeios, exposições e leilões do agronegocio. Eles tem um esquema forte e só deles, no qual dominam quase toda a midia do interior (as radios).

Com isso, já no final dos anos 80, as grandes gravadoras e as TVs das grandes cidades se interessaram por esse mercado rural. Assim tivemos a invasão dos sertanejos em quase tudo. A coisa passou do rural para o nacional. Hoje em dia, tudo que é deputado, novo rico e gente de qualquer faixa etária compra disco e escuta os lamentos de corno dos sertanejos.

kiloton disse...

Dunha,

Talvez eu tenha testemunhado até mais do que o Paulo, pois sou mais velho que ele. Cresci em Brasilia nos anos 70. Além de ter testemunhado os anos 70, testemunhei as mesmas coisas que o Paulo viu nos 80.

Mas isso não é nenhuma vantagem, não é nenhuma forma de superioridade. Quem é velho morre antes, não vê o futuro que o jovem verá.

Para ser testemunha da historia, basta prestar atençao. Na época as coisas aconteciam sem aparentar nenhuma importancia. Hoje tambem.

Na época, ninguem apostava um tostão furado naquelas bandas malucas. Os playboys inclusive detestavam aquilo, chegava a querer bater nos punks. Hoje eles tem a coleção completa da Legião e do Capin.

Eu te garanto que agora está acontecendo alguma coisa que será historia no futuro. Basta prestar atenção e ir atras. É preciso enxergar o valor daquilo que é desprezado. Por exemplo, tem cartão de telefone usado, que todo mundo jogou fora, que hoje vale uma puta grana no colecionador.

Daqui a 30 ou 40 anos, coisas que hoje vc não dá importancia podem se tornar valiosas. E uma coisa é certa: a história nunca é escrita exatamente como vc viu.

no hits disse...

Grande André, adoro a Plebe, legal seu blog.

Eu conheço o Felipe Seabra, ele namorou uma amigona minha aqui no Rio.

Grande abraço.

Mikelle disse...

Kiloton, só gostaria de acrescentar que esse fenomeno dos sertanejos, nao é uma coisa isolada. Nos EUA acontece a mesma coisa com a musica country, tem muita gente la faturando alto, com esse mercado de rodeios e do interior. Só que lá nem se compara, faturam muito mais e ganham grana de várias outras formas. Produtos, royalties, shows, etc..
Akele abraco
Mikelle

kiloton disse...

Mikelle,

É verdade, vc tem razão. Os sertanejos aqui copiaram o esquema americano, coisa que já acontecia desde os anos 50.

dg disse...

André,
Como a pauta em questão tem abordado algumas memórias, há uns 4 anos, lí em algum lugar na internet, não sei onde e não achei mais, que vc tb bateu um papo com um RAMONE, acho que em 93...
qdo der, posta de novo!!

dg disse...

X,
Desculpa, não resisti, vou pedir licença e fazer um jabazão aqui, de grátis, do Marchetti:

Gente, ele é um gênio e escreveu o livro, entre outros, “O Diário da Turma 1976-1986: A História do Rock de Brasília – Ed. Conrad” e tem um blog bacana, também, “As Efemérides do Rock Brasileiro”.

LEIAM !!!!

dunha disse...

ele é fera mesmo!