terça-feira, julho 04, 2006

Sombras do Passado numa Esteira Automática



A MTV a palmos do meu rosto, e por mais que eu corresse, não adiantava, não conseguia me distanciar. A opção era descer da esteira, mas não é para isso que eu tinha acordado tão cedo nessa madrugada invernosamente cinza de terça-feira. O jeito foi aumentar a inclinação, ajustar a velocidade e assistir o programa LAB sem som. As academias modernas têm isso, além de querem arrumar nossos corpos, desconfio que possuem uma agenda oculta de obliterar nossa capacidade de raciocinar. Se não, como é que se explica a cacofonia multimídia que assombra os que se sacrificam para manter a forma? TVs de plasma estrategicamente penduradas nas paredes em ângulos que, não importa em que aparelho você esteja malhando, estará vendo pelo menos dois programas. Sim, dois, pois cada TV está sintonizada num canal – e não estou me referindo à TV aberta! Isso, com o volume desligado. São só imagens piscando num ritmo caledoscópico reduzindo os pensamentos dos atletas a nada. Como fundo sonoro, um tecno a - lá Jovem Pan dos infernos. Bate-estaca da pior qualidade. É um hipnotismo coletivo que tem como meta aniquilar qualquer vontade dos presentes a não ser uma: se exercitar. Mas é um exercício sem prazer, tipo vício em crack, quando a dose anterior não satisfaz mais. Minha proteção: um iPod, hoje munido com jazz bebop do Charlie Parker. Mas o fone de ouvido quebrou e fui obrigado a correr os seis quilômetros nas condições acima descritas.

Dois clipes foram exibidos, um após o outro, que me fizeram voltar ao passado e analisar meus gostos e, agora confessos, erros. Primeiro a data: 1987. Reynolds, no seu livro sobre o post-punk (melhor livro de rock de 2005, pelo NME), definiu o fim desse maravilhoso movimento como o ano de 1984. Portanto, os vídeos estão no calendário três anos após essa data. A Plebe estava lançando o Nunca Fomos e, por coincidência, as duas bandas que eu mais ouvia eram The Cult e New Model Army, que tinham colocado no mercado, respectivamente, os discos Love e Ghost of Caine.

Deu deja-vu vendo os clipes. Além disso, vergonha. Vergonha, vergonha, vergonha! Quero pegar todas as cópias do vídeo A Ida (não a do Fantástico, que também é uma merda, a outra versão, a oficial) e queimá-las. Jogar no reator de Angra I e reduzir tudo a átomos! Como que eu, uma pessoa esclarecida, pude, um dia, querer me vestir de Ian Astbury e Billy Duffy? Vendo o vídeo de Love Removal Machine vi o quão ridículos eram. Não só isso, o pior é que eles são traíras, vira-casacas, traidores.

O Death Cult estava bem envolvido na onda post-punk de destruir-para-reconstruir o rock. Tinham um hit importante, Fatman, que trazia tambores baseados nos índios norte-americanos, obsessão do vocalista. Tinha o look certo, tentando sair dos clichês do rock mainstream. Quando o pessoal do post-punk se vestia daquele jeito, ridicularizava os Poisons, Guns n Roses e Vipers da vida. A música era agradavelmente revolucionária, não no termo marxista, mas no sentido boêmio, inteligente, mas individualista. Daí, de uma hora para a outra, largam o Death, ficam com o Cult e fazem a pior paródia de uma banda de rock. Cabelos compridos lavados com galões de condicionador, calças de couro justinhas, jaquetas jeans rasgadas, bandanas (arg!), paredões Marshall (argh! arg!), gritinhos, solos chatos e letras despresíveis.

Eu vendo tudo isso sem som e pensando: que merda! que merda! Mas tiveram o fim que mereciam: o pessoal que gosta do rock tradicional os desprezou. Por que ouvir uma cópia mal feita do AC/DC, quando se tem o verdadeiro lançando não sei quanto discos (todos iguais) por ano? E, claro, os esclarecidos do post-punk abaixam os olhos quando passam pelos músicos do Cult, contendo uma risadinha e evitando contanto visual que pudesse acusar: traíras!

Em seguida, o New Model Army invadiu a tela de plasma com o excelente 51st State of America. Igualmente cabeludos, mas sem o creme rinse e as horas no salão. Cabelo comprido pela opção: ou gasto minhas escassas moedas num corte, ou vou tomar outra cerveja. A cerveja sempre ganhava. Mechas gordurosas, cheias de nós, cabelo normal. Roupas de couro, tudo bem, mas folgadas, provavelmente compradas de segunda mão, igualmente gordurosas, usadas para combater o frio, não pelo fashion. Dentes tortos! Um alívio para minha alma, não é que acertei em alguma coisa em 1987?

Clipe bonito, sem mega-produções, praticamente todo filmando fora da base americana na Alemanha. Letra consistente, dava para ver que eles acreditam naquilo que cantam. E não é que hoje eu tenho o CD do New Model Army, mas não do Cult? Ufa! Terminou a sessão da esteira, pude voltar para casa!

13 comentários:

Anônimo disse...

andré era melhor malhar ouvindo plebe.

e mais notícias do novo CD?

Paulo Marchetti disse...

Isso me fez lembrar da história do Johnny Marr que gostava de REM até ver uma foto da banda... hehe
O visual do Cult era realmente ridículo, mas os dois primeiros discos da banda são muito bons.

F3rnando disse...

Gosto das duas, já ouvi muito Cult até o "Sonic Temple", mas sem ressacas morais. Quando vejo os clipes me trazem lembranças bacanas. E NMA é PHoda! uma das bandas mais subestimadas da história, pena que tenham sido 'vendidos' erradamente no país, como 'banda de surfista'.

F3rnando disse...

Esqueci: Do NMA gosto muito do "Thunder & Consolation", puta disco! Dá até pra esquecer que a capa é chupada do "Discipline", do King Crimson :P

Anônimo disse...

Visual sempre foi um problema. Agora, um problema maior, é não conseguir separar o som do visual.

Tem muita coisa que até hoje soa bem legal, mas o visual da banda ficou pra lá de ridículo. E pra isso, a própria mtv, que antigamente endeusava esses mesmos artistas, hoje tem um programa só pra escrachá-los.

É só pegar lixos atuais como Good Charlotte, Simple Plan, CPM 22 e comparar com Sigue Sigue Sputnik por exemplo. Esses últimos, um dia foram considerados "o futuro da música" ...e olhe onde estão hoje em dia...e pior...continuam com o visual ridículo...

Espero que nunca resolvam fazer uma edição do piores clipes de bandas nacionais...pode ser que o pessoal não consiga separar o som do visual hehehe

André X disse...

Pois é, o som é que realmente importa, concordo. Mas a minha ressaca com o Cult é que, num momento que bandas farofas e hard-rock conservador estavam ganhando força, ocupando o espaço de bandas mais criativas, o Death Cult vira Cult e troca de lado. Posso até separar visual de som, mas nunca ideologia de música.

João disse...

"Sombras do Passado numa Esteira Automática": esse título é sensacional, mereceria ser título de uma música da Plebe. Quanto ao visual nos clips de A Ida, pelo pouco que eu lembro não havia nada de comprometedor.

André X disse...

Me enganei, talvez tenha sido o clipe de Nunca Fomos. Só sei que eu estava ridículo a-lá Cult!

HENRIQUE ALENCAR disse...

Mr X
Você, usava umas roupas muito locas nos clipes, no clipe de Censura, vc parece um cigano punk ...
Bem, não se envergonhe disso, pois daqui a 10 anos, vc estará se envergonhando das que está usando hj, e assim por diante ...
Se bem que os anos 80 é insuperável ...

Abç a tds

CÍCERO disse...

QUANDO EU CONSEGUI MONTAR MINHA COLEÇÃO DE LPs DA PLEBE EU ENCONTREI O Ghost of Caine,QUE MAIS TARDE FOI ROUBADO NEM DEU TEMPO DE EU OUVIR DIREITO.
QUAIS OS CLIPES DO NUNCA FOMOS TÃO BRASILEIROS ????

Anônimo disse...

Será que sai este ano o disco da Plebe???

Anônimo disse...

O NMA é muito bom . Outra banda daqueles tempos que simplesmente é sensacional era o Husker Du. E o novo Cd da Plebe saí ou não ?

Daniel disse...

Plebe é uma boa trilha pra ir pra academia?? Qual academia é essa q tem TV de Plasma??

Abraços

Daniel - Plebe na Pele