quarta-feira, novembro 05, 2008

A Minha Renda!


Um commodity é uma mercadoria que é globalmente negociada, de qualidade quase uniforme, produzida em grande quantidade por muitos produtores e, mais importante, cujo preço é estabelecido pelo mercado e não pelo produtor. Alguém pensou em música? Pois é isso mesmo que está acontecendo com a música, uma “commoditação”.

As gravadoras, até algumas décadas atrás, eram os únicos produtores de música. Controlavam tudo, desde a matéria prima (artistas), passando pela produção, distribuição e marcação de preço. Daí veio a primeira onda, que eles ignoraram: a proliferação de selos independentes. Foi logo anulada pelas gravadoras grandes, pois eles compravam os selos pequenos. Acharam que, assim, estavam em controle de novo. O que não perceberam é que os consumidores gostavam da relação que tinham com os independentes, que atendiam demandas de segmentos (punk, heavy, trash, jazz, etc.) com uma rapidez e competência impossível nas mega-corporações. Também gostavam do fato de que os que estão à frente dos selos independentes colocam música em primeiro lugar, pensando mais como um fã do que um executivo. Bem ao contrário das gravadoras multinacionais.

A segunda onda que até hoje esses altos executivos da indústria fonográfica não entenderam foi a digitalização da música. Esse fato, junto com a troca de músicas pela internet, foi o principal que empurrou a música de um produto único para ser um commodity. De acordo com uma pesquisa recente, os jovens consumidores de música acham que essa deveria ser grátis. Isso desesperou as gravadoras, que estão vendo suas vendas caírem ano após ano.

Parece que agora há uma luz no fim do túnel na forma de uma solução que irá satisfazer ambos, os consumidores e as gravadoras. Se trata da venda de produtos, como celulares e assinaturas de banda larga, com o direito à download ilimitado de músicas. Graças a um acordo entre empresas e gravadoras, isso se tornou possível.

Quem saiu na frente foi a Nokia com o serviço “Comes With Music”, CWM, que entrou em efetividade esse mês, na Inglaterra. Funciona assim, você compra um celular Nokia e tem o direito de, durante um ano, baixar o que quiser de fontes seguras e legais. Você ainda pode guardar tudo que você baixou e usar como quiser, queimando CDs, etc. Terminou o ano, pode fazer outra assinatura do CWM ou, como espera a Nokia, comprar outro celular.

A empresa dinamarquesa TDC, também fez o mesmo com assinaturas de banda-larga. A Orange, uma operadora de celular, também entrou na onda com o Musique Max, que funciona muito igual a CWM.

Apesar de ter muitas reservas contra a indústria fonográfica, acredito que sem ela, a qualidade e acessibilidade à música podem piorar. É importante para o artista e para o público que a produção musical só cresça e melhore. Tomara que, com soluções como a descrita acima, os executivos fonográficos sosseguem seu apetite por lucro ilimitado e repensem a indústria. Poderiam para de tratar músicos como reis, como deuses. Não há razão nenhuma para um músico ganhar mais que um trabalhador normal. Gostaria muito que parassem com atividades sujas, como pagar jabás, congelar artistas, criar sucessos artificiais. Talvez um dia nós teremos uma indústria fonográfica que ponha música em primeiro lugar.

14 comentários:

Du disse...

Ola X, Uma duvida, cara esse negocio de regravar os dicos da Plebe e lançar, a EMI não pode freiar isso ja que ela tem é a gravadora que pelo menos na época pagou pelas obras, ou ela não tem direito nenhum? um abraço.

Anônimo disse...

música já era!

vc vê a importância que os grandes portais brasileiros têm dado a ela.

ou seja: repete-se apenas as notícias chapa-branca das matrizes hegemônicas.

and i feel fine...

abs

anonimo 2 disse...

Pois é X, logo compraremos arroba de boi gordo, quilo de frango vivo e gigabyte de musica, tudo na BM&F.

Pode comprar tambem no varejo, para no domingo fazer uma churrascada de picanha, frango na brasa e alguns megas de axé, pagode e sertanejo.

Não é o caso de tratar o musico como animal. Os animais é que são tratados cruelmente, tem a carne vendida como se fosse musica, digo, commodity.

anonimo 2 disse...

Sobre a Obamania, certamente é muito menos pior que McCain/Palin, mas esse não é o fim do imperialismo yankee. Não haverão mudanças significativas: Obama Illusion

Anônimo disse...

o comentário do anônimo 2 foi tão esperto e engraçado, néam?

zé mendes disse...

Legal anonimo. Vc gostou? Obrigado. Vou retribuir escrevendo ainda mais:

Caro X,

Imagine uma banda se transformando em sociedade anonima. A banda abriria o seu capital na bolsa, vendendo ações. Assim, a banda poderia se capitalizar, para comprar equipamento e etc.

Então, o investidor, escutando e conhecendo a banda, gostando, compraria ações. Se a banda viesse a crescer, fazer sucesso e/ou vender muito, as ações subiriam.

Deste modo, ainda no final dos anos 70, começo dos 80, X teria comprado ações de bandas então obscuras como Police, U2, Cure, Clash... Hoje estaria nadando em dinheiro, junto com Bono Vox, Sting e outros.

Ainda ontem li sobre um maluco que ganhou uma boa grana na bolsa de apostas de Londres. O cara apostou em Lewis Hamilton, ainda nos anos 90, quando esse ainda corria de kart, que esse seria o campeão de F1 em 2008. Tem até gente aposta a data da morte de Amy Winehouse.

zé mendes disse...

Caro X,

Para mim, pensando como colecionador de musica, a minha resistencia em pagar por mp3, isso só vai acabar quando as gravadoras se unirem para disponibilizar TUDO num database só.

Quando falo TUDO, isso inclui todos os discos fora de catalogo, os independentes e qualquer um que quiser entrar, de todas as épocas.

Assim, para baixar a musica que eu quiser, sem ficar procurando, havendo esse local seguro, garantido e completo, pagaria satisfeito.

Poderiam cobrar 100 contos por cada gigabyte rebaixado. Poderiam até cotar o preço na BM&F.

O problema, para mim, é que os databases atuais ainda não tem tudo que eu quero.

O iTunes Music, por exemplo, que é um dos maiores, que nem pode vender para o Brasil, é muito mais facil achar Ivete Sangalo. Disco raro e antigo, fora de catalogo, isso não tem. Novidade boa e obscura tambem não tem.

Muitas pessoas então recorrem ao file sharing, na esperança de encontrar uma boa alma que digitalizou o vinil antigo ou a novidade moderna que ainda não chegou na midia.

Se nas lojas online não encontram o que querem, então tem que sair na caça, procurando e baixando onde estiver disponivel.

Enfim, a minha idéia seria a RIAA fazer uma especie de Myspace super completo. A RIAA juntaria todas as gravadoras e criaria paginas para todos os artistas da historia, incluindo os independentes, os fora de catalogo e todo mundo que quiser colocar sua musica a venda.

Assim, as gravadoras passariam a ser um mercado de compra e venda, tipo commodities online. No ato de qualquer venda, pagaria uma percentagem para o artista.

Tambem, como acontece no Myspace, a gravadora contratariam qualquer um, levando uma percentagem do que for vendido. Ninguem poderia reclamar e dizer que não foi contratado.

Com esse sistema se expandindo para os celulares, as gravadoras podem voltar a ganhar grana, e os artistas tambem.

O fato é que o CD, a antiga forma de comercialização fisica, isso é uma midia velha que tem seus dias contados. É preciso se adaptar a nova midia eletronica.

Para isso é preciso repensar as maneiras de se comercializar a musica. Há mais de 10 anos que essa nova midia existe e as gravadoras ainda não repensaram porra nenhuma.

A musica deixou de ser um produto fisico e passou a ser um serviço eletronico. Para a gravadora voltar a ganhar grana, ela tem que intermediar isso atraves de um mercado eletronico, coisa que tornaria a musica uma commodity mesmo.

Para terminar, uma pergunta: os plebeus nunca pensaram em fazer esquema e-commerce na pagina da plebe, para vender mp3, camisetas, adesivos e etc?

Anônimo disse...

agora sim...
surtindo efeito a provocação.
abs

zé mendes disse...

Eureka! Tive uma boa idéia.

Trata-se de resolver esse problema todo transformando o copiador pirata em sócio e fazendo o fã virar uma especie de revendedora da Avon.

Deixe explicar: nos file sharings da vida, seja fã ou copiador pirata, todo mundo baixa mp3 de graça, mas tambem libera upload gratis para os outros mamarem.

Então, como a natureza humana é fominha, todo mundo gosta de levar vantagem, a idéia seria dar a oportunidade do copiador e/ou fã ganhar grana vendendo mp3 da banda.

Seria uma especie de SoulSeek, no caso um "GranaSeek", onde se pagaria os downloads, mas tambem ganharia nos uploads.

Se estiver valendo grana, todo mundo vai querer colocar sua biblioteca musical a disposição nessa rede, para ver se alguem baixa alguma coisa. A RIAA nem precisaria correr atras do conteudo. Teria de tudo. Seria melhor que a Napster, pois todos iriam querer ganhar grana.

As redes de file sharing de copiação gratis, esses seriam naturalmente esvaziados, não haveria muita coisa a disposição, pois todos iriam migrar para o outro que é mais vantajoso.

Nesse sistema de Napster valendo grana, seria algo mais ou menos assim: quem baixa paga 1 real, quem fornece ganha 20%. A gravadora leva 40% e o artista tambem leva 40%.

Deste modo, toda vez que acontecesse um dowload de uma banda nessa rede, os artistas levam $0.40. Para a gravadora é melhor ainda: para qualquer download, de qualquer banda, levam $0.40 tambem.

Para o usuario que colocou sua biblioteca de mp3 a disposição, cada 5 uploads ganha um download de graça. O cara que tiver uma biblioteca boa, bem procurada, esse ganha muita musica e até credito em dinheiro.

wille disse...

A indústria fonográfica é um intermediário entre o artista e o público. Intermediário este que só se fazia necessário nos tempos em que havia uma distância muito grande entre os dois e um custo muito grande para se produzir e distribuir música.

Já hoje vivemos um tempo em que tanto a produção como a distribuição estão muito mais acessíveis. Pra mim, não existe motivo pra existir indústria fonográfica e não vejo nenhuma relação da existência desta com a qualidade da música que se é produzida.

Música hoje é um bem não-tangível e não faz sentido tentar vendê-la como se vende banana na feira.

Mac Nelson disse...

O Wille tem razão. Mas como então será possivel ganhar dinheiro com musica?

Paulo Henrique disse...

Excelente tópico! Um dos melhores do blog.

Até que enfim tomaram uma iniciativa boa e revolucionária. Mas, como diz os textos, há expeculações: Só será possível baixar músicas até encher a memória do celular?

Será que vai ser caro? Porque um ano de download grátis não deve ser tanto assim um mar de rosas... Além disso temos que contextualizar a novidade com a realidade: Coisas assim demoram a chegar no Brasil (a não ser que seja terceirisado, ou seja, MUITO caro). A TV digital chegou na Europa em 1992, e no Brasil ainda nem chegou DE VERDADE! Então até lá não é justo continuarem tentando criminalisar o download, como fez o Senador Azevedo:

http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=59842273

zé mendes disse...

Observo que existem dois tipos de produtos no mercado: novo e usado.

O produto usado é aquela musica mais antiga, que muitos tem, muitos já copiaram, facil de encontrar no download, sendo até mesmo vendida, por mascates informais, na feira popular de contrabando e falsificação.

Chega uma hora que o disco antigo não vende mais na loja. O artista perde o dominio e controle da obra. Além de virar Frankenstein na má interpretação da letra, o produto velho é como um monstro que foge para crescer na rua, sem mais obedecer o antigo master.

Já o produto novo é diferente. Ele demora algum tempo até chegar no povo pirata. No começo é possivel vender alguma coisa. Por isso os DJ ingleses costumam lançar tudo primeiro em vinil, para dificultar um pouco a copia instantanea de CD.

De qualquer modo, no caso de haver uma napster de compra e revenda, teorizada por Zé Mendes, a forma de cotar a commodity, seja ela nova ou usada, isso seria a lei da oferta e procura.

Duas coisas valorizam o produto: alta procura e baixa oferta. O bom é juntar os dois.

Deste modo, esse sistema não valorizaria apenas as Ivetes Sangalos, as raridades bem procuradas tambem teriam boa cotação.

Se o sujeito conecta uma biblioteca de musicas manjadas, coisa que todo mundo tem, ele terá menos chance receber um upload, pois existe muita concorrencia.

Enquanto isso, se o sujeito é o unico que possui raridades de boa qualidade, esse receberia mais uploads.

Assim, cria-se um mecanismo de mercado que combate o marketing forçado. Quando a coisa fica muito popular, a bolha estoura e vem uma de queda estabilizadora. A boa qualidade e exclusividade passa o ser mais importante.

Já voltado ao caso do produto novo, se a banda lança um disco bom, no começo o negocio ainda é raro e exclusivo. A banda pode ganhar alguma grana nesse começo, pois, por algum tempo, seria a unica a disponibilizar o produto.

De qualquer modo, seja no sonho de Zé Mendes ou na vida real, o fato é que a pirataria exige do artista mais shows e novos trabalhos.

Concluindo então, acho que a pirataria se tornou uma realidade irreversivel. A RIAA tem que fazer igual o rei Constantino: se não pode vence-los, una-se a eles. Não é possivel mesmo proibir a copia de musica. Isso é o mesmo que proibir o sexo. Tem que haver um modo de colocar essa realidade a favor da correnteza, na direção certa.

RickAlencar disse...

Essa idéia do Anônimo 2 já está sendo estudada.
Lí á algum tempo atrás sobre isso, fazer das bandas um "negócio" onde os fâns investiriam e assim aceitariam os riscos de a banda subir ou cair, não sei se seria vendida essas ações como Comodites mas a idéia é essa.

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Mesmo com o download liberado os músicos ainda podem receber por execução das músicas pelo ECAD, que tem essa função e é claro pelos shows.