Fim de carnaval, época maldita, na qual a mídia vem de rodão obrigando-nos a nos divertir, mesmo que não gostemos de samba, axé, calor, ginga e alegria popular. Querendo me juntar aos meus semelhantes, fui tentar a sorte em Salvador, afinal, lá não tem samba. Maldições, deveria ter ficado em Brasília. O pior foi o que se seguiu, quarta-feira de cinzas não havia mais passagens de ônibus para voltar ao DF. O rapaz da rodoviária colocou as alternativas na mesa: “Meu rei, fica aqui, onde o carnaval ainda vai durar mais duas semanas, ou vá de cidadezinha em cidadezinha até Brasília. Agora mesmo, tem um ônibus saindo para São Judas do Concal Doce. De lá você pega outro até Deodato e assim por diante, até ter um direto para sua casa.”
“Mais duas semanas de carnaval?!?! Prefiro tentar a sorte na estrada, me vê uma passagem para esse tal de São Judas.”
Depois de seis horas saracoteando dentro de uma sauna sobre rodas que chamam de ônibus, junto com trinta outras pessoas, duas galinhas e um porco, parando de cidadezinha em cidadezinha, chegamos na parada final, São Judas do Concal Doce, o fim do mundo, na minha opinião. Uma estrada de terra com casas de barro em ambos os lados, uma igreja, uma delegacia, um colégio, uma rodoviária, em fim, um de cada coisa que uma vila deveria ter. Acho que nem Clint Eastwood se sentiria em casa num lugar inóspito desses.
Assim que saí do ônibus, fui correndo para o guichê – o único, claro – para comprar passagem para Deodato. “Meu rei, você acabou de perder a condução, hoje só depois de amanhã.” Desolado, fui me sentar nas cadeiras de madeira que ficavam sob o teto de zinco que chamavam de rodoviária para decidir o quê fazer. Ficar aqui? Ir para outra cidade? Voltar para Salvador? Estava entorpecido pelo calor, olhar distante, ouvindo as moscas zumbirem sobre a cabeça. De repente uma mão gelada toca o meu rosto. Levo um baita susto. Focalizo a visão e tem um homem parado, seu pélvis a centímetros do meu nariz. Sua mão suada ainda pousada na minha bochecha.
“Filho da puta!”, grito, e empurro o cara, que cai sentado no chão e rola descontroladamente para os lados.
O movimento da rodoviária cessa. Todos olham para a cena: eu de pé, o cara no chão, agonizando. “Ele empurrou o ceguinho!”, alguém grita. Logo, aparecem uns dois negões para ajudar o sujeito a se levantar. Não deu nem tempo para pedir desculpas, de explicar que não tinha idéia que era um cego. Levei um soco na barriga que me jogou sentado. “Quero ver bancar o valente com alguém do seu tamanho!”, diz o agressor, se afastando.
Sinto os olhos de todos sobre mim, me fuzilando, me condenando por ter agredido o cego. Retiro-me devagar, olhando para o chão, tentando não cruzar olhares com ninguém. Vou até o bar do outro lado da rua e peço um café. O cara atrás do balcão põe o copo cheio na minha frente e, quando vou pegá-lo, cospe dentro e me xinga: “babaca!”. Sinto que também não sou bem vindo no bar. Assim que saio na rua, um grupo está me esperando. “Vamos descontar nele o que fez com o ceguinho!”, comando um garoto fedelho, e todos obedecem. Derrubam-me, levo chutes, cascudos e escarradas. Quando cansam de me agredir, me arrasto até a calçada e fico lambendo as feridas.
Só percebo que tem alguém no meu lado quando levanto a cabeça. Com os dentes cerrados, esperando ser agredido novamente, resmungo: “Cara, sei que errei, mas eu não sabia..”
“Fica frio. Adorei o que você fez. Toma um gole.” O sujeito coloca um copo de água na minha mão. Bebo gulosamente, mas sem entender nada. Quando o encaro, noto que é caolho. O olho bom me observa com ternura; o ruim, todo opaco e negro, fita o nada.
“Já ouviu o ditado em terra de cego, quem tem olho é rei? Tudo papo furado! Eu tenho um olho, mas quem ganha todas as esmolas é o cego! Todos ficam com pena dele e o cara leva dez vezes mais grana para casa todas as noites do que eu.”
“Sinto muito,” respondo.
“Pois é, pra mim não dá mais, vou me mandar. Meu cunhado vai me levar para Deodoro, lá não tem cego nenhum e vou poder pedir esmola sem competição. Quer uma carona?”
Digo que sim, animado. Dentro de minutos uma Rural caindo aos pedaços estaciona na nossa frente, nos levantamos. O caolho senta na frente e eu, sendo o caronista, me acomodo no baú, atrás. Quando começamos a partir, vejo o ceguinho apoiado no muro, esmolando. Bato no vidro que dá para a cabine e falo para o motorista: “espera um pouco, tenho um último negócio a acertar.”
Pulo do carro, corro até o cego e aplico-lhe uma banda. Ele voa no ar e cai de costas no chão. Ainda cuspo em cima e xingo: “cego filho da puta”. Antes que os locais consigam reagir – certamente me linchariam se me pegassem – pulo na Rural que arranca. Vejo uns furiosos correndo atrás do carro, tentando nos acertar com pedras. Em vão.
Olho para frente e reparo na mão do caolho estendida para fora do carro, o dedo do meio em riste, se despedindo da cidade.
terça-feira, abril 05, 2005
ANA'S IN THE HOUSE!
Sim, estive ausente. È frustrante para os leitores de um blog acessarem o endereço todos os dias somente para verificar que não há mudanças nenhuma. Pelo desculpas, mas houve um bom motivo. É que uma mulher nova entrou na minha vida. Ela me mantém ocupado praticamente todas as horas do dia. Quando digo nova, é nova mesmo: tem apenas uma semana de idade. Ana, minha filha mais nova, nasceu dia 29 de março às 05h19min. Já está em casa conosco e, junto com minha primogênita, Alice, e a Rosa formamos uma Happy Family. Hey Ho, Let’s Go! Bem vinda!
segunda-feira, março 28, 2005
A PLEBE ESTARÁ NUMA RAVE GÓTICA!
Acreditem, a sétima edição da Thorns Gothic Rave (traduzindo: Rave Gótica Espinhos) será no dia 9 de abril e, sim, a Plebe estará lá. O que vem a ser uma rave gótica? Bom, numa rave presume-se encontrar um monte de gente alegre dançando e se divertindo; pulando e berrando; roupas leves, tênis retrôs ou sandálias; luzes brilhantes e coloridas. Por góticos, imagina-se um grupo todo vestido de preto, caras amarradas, filosofando, discutindo existencialismo, falsidade da humanidade e outros assuntos do gênero, usando botas e tentando não se misturar com a podridão hipócrita que habita esse planeta. Agora, junte os dois e se tem...... o quê mesmo? Nick Cave com os braços para o ar gritando "uhú, cachû e cogû"? A Siouxsie doida de ecstacy? O Sisters of Mercy fazendo uma almôndega humana ao som de house? Quem estiver curioso, apareça, nós vamos dar o máximo para que seja um acontecimento digno do nome.
Posso parecer estar zoando, mas, nos anos 1980s, já fui dark (que é como chamavam os góticos na época). Já li muito Friedrich Nietzsche. Já discuti o existencialismo enquanto bebia cachaça. Já me vesti todinho de preto e andava pelas sombras no auge do verão carioca. Já vi Sisters of Mercy no Canecão e fiquei de joelhos gritando "caramurú, caramurú". Minha filha já usou o pijama que herdei do filho do Nick Cave. Já colecionei caveiras. Por isso, minha curiosidade. Quem quiser saber mais, entre no site: www.thorns.com.br ou fiquem ligados neste blog para os comentários póstumos.
Só uma reclamação: para que colocar no site e na divulgação uma foto do Philippe tocando com os Paralamas (eles são góticos? >:) Ou aquela foto velha, com o saudoso Jander?
Posso parecer estar zoando, mas, nos anos 1980s, já fui dark (que é como chamavam os góticos na época). Já li muito Friedrich Nietzsche. Já discuti o existencialismo enquanto bebia cachaça. Já me vesti todinho de preto e andava pelas sombras no auge do verão carioca. Já vi Sisters of Mercy no Canecão e fiquei de joelhos gritando "caramurú, caramurú". Minha filha já usou o pijama que herdei do filho do Nick Cave. Já colecionei caveiras. Por isso, minha curiosidade. Quem quiser saber mais, entre no site: www.thorns.com.br ou fiquem ligados neste blog para os comentários póstumos.
Só uma reclamação: para que colocar no site e na divulgação uma foto do Philippe tocando com os Paralamas (eles são góticos? >:) Ou aquela foto velha, com o saudoso Jander?
RESUMO DA SEMANA (até 28 de março)
MÚSICA: Cosmic Sounds, último CD do Thievery Corporation. Miles Davis, Charlie Parker e muito West Coast Jazz.
LEITURA: Históira do Olho, de Georges Bataille (é pornografia? é erotismo intlectual? é um safado escrevendo ou um acadêmico respeitado? dúvidas......)
COMIDA: Vatapá da Sogra.
TRAIÇÃO À PÁTRIA: torcer para o Peru. Calma, eu explico: temos muita gordura para queimar, estamos longe do terceiro lugar. Se o Peru ganha, o Parreira cai. Tudo pelo bem da Seleção.
LEITURA: Históira do Olho, de Georges Bataille (é pornografia? é erotismo intlectual? é um safado escrevendo ou um acadêmico respeitado? dúvidas......)
COMIDA: Vatapá da Sogra.
TRAIÇÃO À PÁTRIA: torcer para o Peru. Calma, eu explico: temos muita gordura para queimar, estamos longe do terceiro lugar. Se o Peru ganha, o Parreira cai. Tudo pelo bem da Seleção.
quarta-feira, março 23, 2005
DIA INTERNACIONAL DA ÁGUA, 22 DE MARÇO.
Ainda insistem em avacalhar a data tocando aquela música insuportável do Guilherme Arantes, Planeta Água. Mas o tema é dos mais sérios, pois a água é um bem escasso, ou seja, um dia vai acabar. Quando isso acontecer, tudo bem, morreremos juntos. O pior é o que ocorrerá antes: só terão acesso à água os mais ricos. Pobres serão aniquilados pela sede. Será pior que a corrida por petróleo, pois sem gasolina a vida continua, sem água, não.
E alguém se preocupa com isso? Sim, a WWF, o Greenpeace e outras organizações que, infelizmente, não apitam nada. Os políticos, que têm o dever de legislar sobre o assunto, possuem uma visão míope, que se restringe aos seus mandatos. De que adianta fazer leis que só afetará os eleitores daqui a algumas décadas se eu não estiver mais no poder? É assim que pensam. Literalmente, os burros d’água!
O Distrito Federal, de acordo com o Ibama, é um dos exemplos mais negativos no gerenciamento dos recursos hídricos. Dos três rios planejados para serem represados no intuito de abastecimento de água à população, um está inutilizado. O São Bartolomeu deveria ter sido, pelos projetos originais de Brasília, represado alguns quilômetros acima para construção de um segundo lago que viria amenizar o clima e garantir o abastecimento d´água. Devido aos condomínios e chácaras que ocuparam suas cabeceiras e boa parte das áreas que seriam inundadas, o projeto foi deixado de lado. Ou seja, permite-se o aumento da população, por meio de invasões e crescimento desordenado, mas não do acesso à água. Mais eleitores, tudo bem, mas vão passar sede. Reza o dito popular que a água é silenciosa, mas perigosa. A bomba relógio está armada.
Os bacanas que moram nos lagos desconsideram a lei e sugam sem parar do lençol freático, com sérias conseqüências para o futuro do abastecimento do DF. Fazem isso não porque são malvados e gananciosos, mas porque não existe uma política de longo prazo que eduque e, principalmente, fiscalize. Tudo para não perder votos. A água dá, a água leva. É o que vai acontecer.
Mas estou chovendo no molhado. Muitos outros também estão. Se não resulta em votos, os nossos representantes não estão interessados. Água fria não escalda pirão. Depende de nós. Águas passadas não movem moinhos, mas as urnas futuras sim.
E alguém se preocupa com isso? Sim, a WWF, o Greenpeace e outras organizações que, infelizmente, não apitam nada. Os políticos, que têm o dever de legislar sobre o assunto, possuem uma visão míope, que se restringe aos seus mandatos. De que adianta fazer leis que só afetará os eleitores daqui a algumas décadas se eu não estiver mais no poder? É assim que pensam. Literalmente, os burros d’água!
O Distrito Federal, de acordo com o Ibama, é um dos exemplos mais negativos no gerenciamento dos recursos hídricos. Dos três rios planejados para serem represados no intuito de abastecimento de água à população, um está inutilizado. O São Bartolomeu deveria ter sido, pelos projetos originais de Brasília, represado alguns quilômetros acima para construção de um segundo lago que viria amenizar o clima e garantir o abastecimento d´água. Devido aos condomínios e chácaras que ocuparam suas cabeceiras e boa parte das áreas que seriam inundadas, o projeto foi deixado de lado. Ou seja, permite-se o aumento da população, por meio de invasões e crescimento desordenado, mas não do acesso à água. Mais eleitores, tudo bem, mas vão passar sede. Reza o dito popular que a água é silenciosa, mas perigosa. A bomba relógio está armada.
Os bacanas que moram nos lagos desconsideram a lei e sugam sem parar do lençol freático, com sérias conseqüências para o futuro do abastecimento do DF. Fazem isso não porque são malvados e gananciosos, mas porque não existe uma política de longo prazo que eduque e, principalmente, fiscalize. Tudo para não perder votos. A água dá, a água leva. É o que vai acontecer.
Mas estou chovendo no molhado. Muitos outros também estão. Se não resulta em votos, os nossos representantes não estão interessados. Água fria não escalda pirão. Depende de nós. Águas passadas não movem moinhos, mas as urnas futuras sim.
terça-feira, março 22, 2005
SHOW DA PLEBE DIA 19 DE MARÇO: KAZEBRE
O Kazebre já tem minha simpatia por ser um clube de motos. A organização é impecável, melhor camarim que pegamos nos últimos anos. Aliáis, melhor público também. Só não entendi o Iron Maiden depois que tocamos, deve ser alguma praxe do lugar, tudo bem. A reação da platéia à nova formação é inspiradora. Dá a força necessária para derrubar todos os obstáculos e seguir em frente. Conheci um monte de gente que não me lembro mais, abraços!
quarta-feira, março 16, 2005
PAPA ESSA!
Está no jornal: “Papa aparece de surpresa para abençoar fiéis.” Imagino a cena: um grupo de turistas brasileiros passeando pelo Vaticano. Passam maravilhados pelas obras de arte, pelas esculturas, pelas tapeçarias. Liderando a turma, um senhor, tipo Severino Cavalcanti, se achando mais perto de Deus por estar em local tão sagrado. Atrás dele, senhoras religiosas ficam repetindo “benza Deus” a cada atração. No meio, uns adolescentes entediados, loucos para sair dali para ver um jogo do Inter de Milão.
De repente, de trás de uma coluna, pula o pontífice, todo de branco, e diz, em latim, “em nome do pai, do filho e do espírito santo”. As velhas quase morrem de susto! Fantasma!, gritam, assombração! O pseudo-Severino sente seu coração fraco disparar e os braços ficarem dormentes. Tem que se apoiar no joelho de Davi para não desmaiar. O menino grita: “é o Jabá, the Hut!” E a irmã, mais acertadamente, grita: "não! é o bicho papão!"
O Papa some, tão rápido quanto veio, para pregar a mesma peça em outros turistas desavisados.
De repente, de trás de uma coluna, pula o pontífice, todo de branco, e diz, em latim, “em nome do pai, do filho e do espírito santo”. As velhas quase morrem de susto! Fantasma!, gritam, assombração! O pseudo-Severino sente seu coração fraco disparar e os braços ficarem dormentes. Tem que se apoiar no joelho de Davi para não desmaiar. O menino grita: “é o Jabá, the Hut!” E a irmã, mais acertadamente, grita: "não! é o bicho papão!"
O Papa some, tão rápido quanto veio, para pregar a mesma peça em outros turistas desavisados.
20 ANOS NO LIXO.
Foi um golpe! Um golpe no sentido do pôquer, do blefe, do assustar o colega que tem uma mão melhor, que desiste, e você, que tem um jogo horrível, pega o prêmio. O Figueiredo sabia, saiu pelos fundos, querendo nos avisar: esse cara é um pilantra, não vou passar a faixa para ele. Pena que ninguém ouviu! Depois de 21 anos de ditadura, não estavam acostumados com os ares democráticos e, feito um alcoólatra reincidente, foram contaminados, foram com muita sede ao pote. Engolimos o Sarney, a Constituinte, o Ulysses, o Funaro, o Plano Cruzado e todo o resto da farsa sem pestanejar. Como dizem na pesca: anzol, vara e tudo.
Queríamos começar com o pé direito, mas acabamos com cabelo na sopa. Ou melhor, fio de bigode. O Mestre do Maranhão hoje diz que foi “obrigado a fazer um plano populista pois faltou apoio da inteligência nacional ou da opinião pública, nem de grupos econômicos.” Quer dizer, foi tudo uma fachada, que pagamos caro até hoje. Na verdade ele não tinha o apoio porque esse pessoal viu nele um charlatão. Não iam colocar suas fichas numa furada dessas. Aliais, ele não enganou ninguém, a não ser os fiscais do Sarney, um bando de donas-de-casa que não tinham mais o que fazer.
Hoje fazem 20 anos! Nesse mesmo tempo, a Coréia, investindo maciçamente em educação, elevou o nível do seu povo para o de primeiro mundo. Em duas décadas, investindo em educação e infra-estrutura, o Japão se recuperou de uma guerra e duas bombas atômicas, se tornando referência econômica mundial. Não só perdemos o bonde da história, como entramos numa canoa furada. O capitão, seu José Sarney. Jogamos esses 240 meses no lixo acreditando na Constituição de 88, que ainda engessa o país. O Delfin vai voltar, agora como ministro do PT. O Maluf ainda tem força. Quércia apita. O único que está no fundo é o Ulysses, literalmente. Estamos ainda na linha de largada e o resto do mundo moderno já está voltas à nossa frente.
E o pior: quem manda ainda é o bigodudo.
Queríamos começar com o pé direito, mas acabamos com cabelo na sopa. Ou melhor, fio de bigode. O Mestre do Maranhão hoje diz que foi “obrigado a fazer um plano populista pois faltou apoio da inteligência nacional ou da opinião pública, nem de grupos econômicos.” Quer dizer, foi tudo uma fachada, que pagamos caro até hoje. Na verdade ele não tinha o apoio porque esse pessoal viu nele um charlatão. Não iam colocar suas fichas numa furada dessas. Aliais, ele não enganou ninguém, a não ser os fiscais do Sarney, um bando de donas-de-casa que não tinham mais o que fazer.
Hoje fazem 20 anos! Nesse mesmo tempo, a Coréia, investindo maciçamente em educação, elevou o nível do seu povo para o de primeiro mundo. Em duas décadas, investindo em educação e infra-estrutura, o Japão se recuperou de uma guerra e duas bombas atômicas, se tornando referência econômica mundial. Não só perdemos o bonde da história, como entramos numa canoa furada. O capitão, seu José Sarney. Jogamos esses 240 meses no lixo acreditando na Constituição de 88, que ainda engessa o país. O Delfin vai voltar, agora como ministro do PT. O Maluf ainda tem força. Quércia apita. O único que está no fundo é o Ulysses, literalmente. Estamos ainda na linha de largada e o resto do mundo moderno já está voltas à nossa frente.
E o pior: quem manda ainda é o bigodudo.
segunda-feira, março 14, 2005
RESUMO DA SEMANA (7 a 14/março/2005)
Música: "Moving Targets" do Penetration, conjunto punk de Manchester, liderado pela incrível Pauline Murray, gravado em 1978. Mixes do Laurent Garnier e Jeff Mills pela Radio Nova, na qual saem do tradicional e mixam tudo, inclusive Marcelo D2 e Jorge Ben.
Leitura: Artigo sobre Clevelândia, o Inferno Verde, publicado na última revista História, que conta um pouco dessa colônia penal no Oiapoque para onde o presidente Arthur Bernardes mandava os líderes trabalhadores, anarquistas e outros que se opunham ao governo central. Tortura, repressão e censura não era exclusividade da "gloriosa" de 1964.
Comida: Paella da Luana e Saiuri!
TV: Lost, na AXN.
Link: http://www.showstudio.com/projects/hyena/start.html
Leitura: Artigo sobre Clevelândia, o Inferno Verde, publicado na última revista História, que conta um pouco dessa colônia penal no Oiapoque para onde o presidente Arthur Bernardes mandava os líderes trabalhadores, anarquistas e outros que se opunham ao governo central. Tortura, repressão e censura não era exclusividade da "gloriosa" de 1964.
Comida: Paella da Luana e Saiuri!
TV: Lost, na AXN.
Link: http://www.showstudio.com/projects/hyena/start.html
sexta-feira, março 11, 2005
CADEIA DE TELEVISÃO
José Cruel nunca foi um expoente no mundo do crime. Teve sorte de nascer com esse sobrenome, pois essa alcunha nunca teria lhe sido dada se não estivesse na sua certidão de nascimento. Zé Cruel, como era conhecido na Ceilândia, desde pequeno andava com os maus elementos da sua vizinhança. Tanto que o povo começou a se acostumar com sua figura ao lado dos traficantes e criminosos locais. Lá vai o Zé Cruel, diziam, e o nome ficava gravado na cabeça do ouvinte. O marketing faz o produto e, com um apelido desses, logo ganhou fama de perigoso, apesar de não passar de um garoto de recados dos verdadeiros criminosos.
Estudou pouco, sua escola foi a rua; seus “professores”, todos procurados pela polícia. Mas não aprendeu muito, Zé Cruel era mais pose do que fato, e esse foi todo o problema. Um dia, a turma local pegou um dedo-duro, um informante da polícia infiltrado no bando. Torturaram o coitado. O corpo foi achado enterrado no lixão. O defunto era bem quisto na delegacia. O delegado queria a todo custo o assassino. Quem teria o sangue-frio para fazer uma barbaridade dessas? Foi o quê os tiras se perguntaram. Só pode ter sido obra do Zé Cruel!, responderam todos, inclusive os verdadeiros culpados, para se inocentarem. Resultado: sem ter para onde ir, traído pelos amigos, Zé foi obrigado a se refugiar num quartinho em cima de um bar de um primo, enquanto a barra não esfriava para o seu lado.
Zé Cruel está se sentindo a Anne Frank, escondido do mundo nesse quartinho minúsculo decorado com um colchão e uma TV. Nada mais. A única janela é pequena e estreita e fica colada à laje, longe do seu alcance. Fica vendo televisão 24 horas por dia, pois não se arrisca descer e ser reconhecido. É do interesse de todos que seja preso logo, então passa o seu tempo vendo a programação da Globo, SBT, Record e MaisTV. E não agüenta mais! Quanta merda!, diz para si mesmo. Isso está o deixando maluco.
Começa o dia com o Bom Dia DF, passa pela Ana Maria Braga (tem desejos secretos de matar o Louro José), pelos desenhos animados, pelo Jornal Hoje, pelas novelas mexicanas, pelo Vale A Pena Ver De Novo, pelas reprises de filmes ruins, pelos programas de fofoca, pela Hébe, pelo Leão, pelo Ratinho e termina a noite vendo a Ana Paula Padrão. Dorme pensando na telinha, na programação ruim. Seu desejo é falar para as emissoras o quão ruim é. Não é possível que eles não saibam. Ninguém merece, concluí.
Um dia, no meio da reprise vespertina de Se Meu Fusca Falasse, o primo aparece na porta e avisa: Zé, pega leve que o Ibope está lá em baixo.
Zé Cruel vê a sua chance. O Ibope? É com eles mesmo que quero falar! Eles têm que saber! Eles têm que me ouvir, vou contar a verdade sobre a TV. Desce correndo a escada, passando pelo primo, sem ouvir as advertências e protestos do parente. Está convicto de suas ações. Quer, porque quer, dar um jeito nessa programação de merda.
Quando chega no bar, o reconhecem na hora. Os quatro policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais sacam suas armas, imobilizam o coitado e jogam ele no camburão. Esteja preso! Não era o Ibope, mas sim o BOPE. Bem que o primo tentou avisar, mas fazer o quê, o Zé se entregou. Foi o que achou. Não percebeu que o outro tinha entendido errado.
A caminho da prisão, o policial fala para o Zé Cruel: fique tranqüilo, cara, na prisão agora tem televisão. Levou um susto com a reação do preso: nãããããããããããããããooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!
Estudou pouco, sua escola foi a rua; seus “professores”, todos procurados pela polícia. Mas não aprendeu muito, Zé Cruel era mais pose do que fato, e esse foi todo o problema. Um dia, a turma local pegou um dedo-duro, um informante da polícia infiltrado no bando. Torturaram o coitado. O corpo foi achado enterrado no lixão. O defunto era bem quisto na delegacia. O delegado queria a todo custo o assassino. Quem teria o sangue-frio para fazer uma barbaridade dessas? Foi o quê os tiras se perguntaram. Só pode ter sido obra do Zé Cruel!, responderam todos, inclusive os verdadeiros culpados, para se inocentarem. Resultado: sem ter para onde ir, traído pelos amigos, Zé foi obrigado a se refugiar num quartinho em cima de um bar de um primo, enquanto a barra não esfriava para o seu lado.
Zé Cruel está se sentindo a Anne Frank, escondido do mundo nesse quartinho minúsculo decorado com um colchão e uma TV. Nada mais. A única janela é pequena e estreita e fica colada à laje, longe do seu alcance. Fica vendo televisão 24 horas por dia, pois não se arrisca descer e ser reconhecido. É do interesse de todos que seja preso logo, então passa o seu tempo vendo a programação da Globo, SBT, Record e MaisTV. E não agüenta mais! Quanta merda!, diz para si mesmo. Isso está o deixando maluco.
Começa o dia com o Bom Dia DF, passa pela Ana Maria Braga (tem desejos secretos de matar o Louro José), pelos desenhos animados, pelo Jornal Hoje, pelas novelas mexicanas, pelo Vale A Pena Ver De Novo, pelas reprises de filmes ruins, pelos programas de fofoca, pela Hébe, pelo Leão, pelo Ratinho e termina a noite vendo a Ana Paula Padrão. Dorme pensando na telinha, na programação ruim. Seu desejo é falar para as emissoras o quão ruim é. Não é possível que eles não saibam. Ninguém merece, concluí.
Um dia, no meio da reprise vespertina de Se Meu Fusca Falasse, o primo aparece na porta e avisa: Zé, pega leve que o Ibope está lá em baixo.
Zé Cruel vê a sua chance. O Ibope? É com eles mesmo que quero falar! Eles têm que saber! Eles têm que me ouvir, vou contar a verdade sobre a TV. Desce correndo a escada, passando pelo primo, sem ouvir as advertências e protestos do parente. Está convicto de suas ações. Quer, porque quer, dar um jeito nessa programação de merda.
Quando chega no bar, o reconhecem na hora. Os quatro policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais sacam suas armas, imobilizam o coitado e jogam ele no camburão. Esteja preso! Não era o Ibope, mas sim o BOPE. Bem que o primo tentou avisar, mas fazer o quê, o Zé se entregou. Foi o que achou. Não percebeu que o outro tinha entendido errado.
A caminho da prisão, o policial fala para o Zé Cruel: fique tranqüilo, cara, na prisão agora tem televisão. Levou um susto com a reação do preso: nãããããããããããããããooooooooooooooooooooooooo!!!!!!!!!!!!
quinta-feira, março 10, 2005
VIVA O REI CHARLES!
Longa vida ao Charles! Viva o futuro Rei da Grã Bretanha! Estou de saco cheio de todo essas manifestações conservadoras e caretas sobre o casamento de Charles com a Camila Parker Bowles. o orelhudo teve culhão de assumir seus sentimentos pela feiosa e que se foda o resto do mundo. O amor não só é lindo, como é uma questão individual que se restringe aos envolvidos. Quem quer se meter na vida dos outros que volte ao Big Brother.
Neozelandesas protestam, mostrando os peitos. Devem morrer de inveja da noiva real, pois pelo menos os delas estão recebendo carinhos e não têm que ficar ao vento para ganhar alguma atenção. George Bush proíbe a Camila de entrar na Casa Branca porque ela é divorciada e, de acordo com o caubói fascista, causou a separação Charles e Diana. Que diabos! Queria ele que o orelhão ficasse morando com alguém que não amava? Então chifrar a Diana pode, separar não? Se o Bush fosse realmente contra o divórcio, não teria enviado soldados para a guerra, pois os traumas causados por estar em campo são a maior fonte de separação nas forças armadas.
A Rainha Elizabeth não vai ao casamento do filho. Que moralismo falso. Dizem que ela e o marido, o tal do príncipe consorte, rolam de bêbados pelos corredores do Palácio de Buckinham. Ela é que não está a fim de largar a coroa! God save the queen, the fascist regime, cantavam os Sex Pistols. Eles sabiam do que estavam falando. Charles e Camila recentemente foram vaiados pelos súditos durante uma aparição pública. Deveriam ter mandado um dedo real para todos. É muita frustração causado pela inveja da felicidade alheia.
Charles é gente boa. Diz que é fã do Darkness. Alguém com um senso de humor assim não pode ser gente ruim. Viva o Rei Charles!
Neozelandesas protestam, mostrando os peitos. Devem morrer de inveja da noiva real, pois pelo menos os delas estão recebendo carinhos e não têm que ficar ao vento para ganhar alguma atenção. George Bush proíbe a Camila de entrar na Casa Branca porque ela é divorciada e, de acordo com o caubói fascista, causou a separação Charles e Diana. Que diabos! Queria ele que o orelhão ficasse morando com alguém que não amava? Então chifrar a Diana pode, separar não? Se o Bush fosse realmente contra o divórcio, não teria enviado soldados para a guerra, pois os traumas causados por estar em campo são a maior fonte de separação nas forças armadas.
A Rainha Elizabeth não vai ao casamento do filho. Que moralismo falso. Dizem que ela e o marido, o tal do príncipe consorte, rolam de bêbados pelos corredores do Palácio de Buckinham. Ela é que não está a fim de largar a coroa! God save the queen, the fascist regime, cantavam os Sex Pistols. Eles sabiam do que estavam falando. Charles e Camila recentemente foram vaiados pelos súditos durante uma aparição pública. Deveriam ter mandado um dedo real para todos. É muita frustração causado pela inveja da felicidade alheia.
Charles é gente boa. Diz que é fã do Darkness. Alguém com um senso de humor assim não pode ser gente ruim. Viva o Rei Charles!
quarta-feira, março 09, 2005
QUEM (OU O QUE) É A TURMA DA COLINA?
Renato Russo sempre aludia ao grupo de amigos e conhecidos que formavam o núcleo do chamado “movimento punk de Brasília” como a Turma da Colina. Muito mais do que um punhado de músicos que vieram a formar a Legião Urbana, o Capital Inicial, a Plebe Rude, a Escola de Escândalos, o Diamante Cor-de-Rosa, entre outros, faziam parte do grupo pessoas que faziam suas próprias camisetas, estavam envolvidos com fotografia, arte, serigrafia, cinema e desenvolveram um humor próprio identificável até hoje em certas rodas brasilienses. Quando íamos em bando para o Rio ou São Paulo, sempre tentavam nos rotular: vocês são punks ou new wave? Não tínhamos resposta, essa falta de identificação classificatória nunca gerou traumas em nossas cabeças. Éramos únicos, e isso é o que importava.
Para quem não sabe, a Colina não é um monte de terra onde brincávamos em cima, mas sim quatro blocos de três andares dentro do campus da Universidade de Brasília, cercada por mato, isolada no Plano Piloto, onde moravam os professores da instituição. Só que, à época do surgimento da turma, ninguém mais morava lá. Para falar a verdade, do grupo, somente quem morou na Colina foram os irmãos Felipe e Flávio (hoje no Capital), o Gutje, meu irmão Bernardo e eu. A maioria dos outros integrantes da turma nunca botou os pés no local. Morávamos lá muito antes do punk. Éramos recém adolescentes e o Russo, que ainda era Manfredini, nem conhecíamos.
Para nós, que morávamos lá, a turma da Colina era um pessoal mais velho, com jeito de hippies, que ouviam Jimi Hendrix, montavam bandas para tocar blues no térreo dos blocos, acampavam debaixo de umas árvores, liam Marx, jogavam xadrez e nos tratavam bem, mas como pirralhos. Eles, até hoje, mantêm uma ligação forte, tendo até grupo virtual na internet, do qual faço parte como ex-morador do lugar. Por isso estranho quando leio na imprensa, quando vejo na MTV, quando ouço alguém se referir às bandas de Brasília com a Turma da Colina. Sempre me lembro daqueles que foram nossos mentores àquela época.
Passei 18 meses na Inglaterra com meus pais, em 1978. Quando voltamos ao Brasil, permaneci em Curitiba por mais seis meses estudando para o vestibular. No feriado de 7 de setembro, fiz uma pausa e vim para Brasília, me reencontrando com o Fê e conhecendo o Renato Russo, o Loro, o Geraldo, o Aborto Elétrico e a Blitx 64. Saímos uma noite na Caravan laranja dos Lemos e fomos passar o tempo num balão que dividia um cruzamento na Colina. Aprendi que era um lugar favorito do pessoal. Nunca me diverti tanto, ouvindo K7s no toca-fita do carro, falando merda e planejando as bandas que montaríamos e que iriam estourar. Daí a alcunha que o Russo tacou à turma. E colou.
Para quem não sabe, a Colina não é um monte de terra onde brincávamos em cima, mas sim quatro blocos de três andares dentro do campus da Universidade de Brasília, cercada por mato, isolada no Plano Piloto, onde moravam os professores da instituição. Só que, à época do surgimento da turma, ninguém mais morava lá. Para falar a verdade, do grupo, somente quem morou na Colina foram os irmãos Felipe e Flávio (hoje no Capital), o Gutje, meu irmão Bernardo e eu. A maioria dos outros integrantes da turma nunca botou os pés no local. Morávamos lá muito antes do punk. Éramos recém adolescentes e o Russo, que ainda era Manfredini, nem conhecíamos.
Para nós, que morávamos lá, a turma da Colina era um pessoal mais velho, com jeito de hippies, que ouviam Jimi Hendrix, montavam bandas para tocar blues no térreo dos blocos, acampavam debaixo de umas árvores, liam Marx, jogavam xadrez e nos tratavam bem, mas como pirralhos. Eles, até hoje, mantêm uma ligação forte, tendo até grupo virtual na internet, do qual faço parte como ex-morador do lugar. Por isso estranho quando leio na imprensa, quando vejo na MTV, quando ouço alguém se referir às bandas de Brasília com a Turma da Colina. Sempre me lembro daqueles que foram nossos mentores àquela época.
Passei 18 meses na Inglaterra com meus pais, em 1978. Quando voltamos ao Brasil, permaneci em Curitiba por mais seis meses estudando para o vestibular. No feriado de 7 de setembro, fiz uma pausa e vim para Brasília, me reencontrando com o Fê e conhecendo o Renato Russo, o Loro, o Geraldo, o Aborto Elétrico e a Blitx 64. Saímos uma noite na Caravan laranja dos Lemos e fomos passar o tempo num balão que dividia um cruzamento na Colina. Aprendi que era um lugar favorito do pessoal. Nunca me diverti tanto, ouvindo K7s no toca-fita do carro, falando merda e planejando as bandas que montaríamos e que iriam estourar. Daí a alcunha que o Russo tacou à turma. E colou.
terça-feira, março 08, 2005
Resumo da Semana (última de fevereiro)
Leitura: História dos Videogames, artigo na web encaminhado pelo Sr. Pio, garimpador número uno da internet. O endereço é http://outerspace.terra.com.br/retrospace/materias/consoles/historiadosconsoles1.htm .
Música: Hotel Básico, disco solo de Fê Lemos. Ska-p, grupo ska mexicano.
Comida: Pipoca de microondas, sabor bacon.
Alegria: derrota dupla do Severino no Congresso: a liberação das células tronco para pesquisas e o não aumento dos deputados.
TV: Fórmula 51, filme inglês, e a transmissão de Palmeira x Santos (porco!!!!).
Música: Hotel Básico, disco solo de Fê Lemos. Ska-p, grupo ska mexicano.
Comida: Pipoca de microondas, sabor bacon.
Alegria: derrota dupla do Severino no Congresso: a liberação das células tronco para pesquisas e o não aumento dos deputados.
TV: Fórmula 51, filme inglês, e a transmissão de Palmeira x Santos (porco!!!!).
Notícias do Front - Voto em Branco
Ontem foi, ao meu ver, um dia histórico. Finalmente, depois de vinte e cinco anos como músico, gravei uma música com meu ex-vizinho da Colina, companheiro de adolescência, Felipe Lemos, baterista do Capital Incial. Gozado que, ele sendo baterista e eu baixista, era de se imaginar que já teríamos gravado antes. A verdade é que até tocar juntos posso contar no dedo da mão direita as ocasiões. Mas, por obra do destino, nunca entramos no mesmo estúdio. Gravamos a base de Voto em Branco no estúdio do Philippe. Música com menos de dois minutos, 198 bpm. Divertisão pura.
segunda-feira, março 07, 2005
SHOW DA PLEBE DIA 18 DE MARÇO
Sim, é isso mesmo. Dia 18 de março, uma sexta-feira, estaremos tocando no Kazebre Rock Bar, em São Paulo (me falaram que é perto de Guarulhos). Quem vai abrir são nossos brothers Phonopop (de Brasília) e Bikini Cavadão. A promoção é da Rádio 89 FM, então, qualquer dúvida, liguem para lá.
COMO NASCEM AS AMIZADES (E O PUNK BSB).
André Pretorious era uma figura. Quase dois metros de altura, um Sid Vicious loiro que lembra um pouco o Billy Idol. Filho do embaixador da África do Sul, estudava no mesmo colégio que eu, só que uma série na minha frente. Acho que a amizade começou quando nos demos conta que ambos odiavam os Rolling Stones. Isso, numa época em que as chamadas “big bands” (Led Zeppelin, Aerosmith, Lynard Skynard, Deep Purple, etc.) dominavam a cabeça dos jovens. Fomos salvos, em 1976, pelos Ramones, Clash e Pistols. No colégio inteiro, éramos os únicos a ouvir esses grupos novos. Entendíamos que algo estava acontecendo, que 1977 era um divisor de águas. Os outros insistiam em ouvir Free Bird do Lynard Skynard durante o recreio. Coisa que nos dava náuseas, nos obrigando a lanchar no parquinho, junto com os alunos do jardim de infância. Lá, pelo menos o barulho era mais digerível.
Naquele mesmo ano, aconteceu um mega-evento, uma espécie de olimpíada escolar de grande porte, no Rio de Janeiro. Oitenta por cento dos alunos da escola foram. Só ficaram para trás um bando de nerds, uns rebeldes e nós (até hoje não sei se me enquadro no primeiro ou segundo grupo...). Como a maioria dos professores também foram, criaram uma programação “alternativa” para aqueles que permaneceram em Brasília. Eram umas oficinas de arte, leitura e muito, muito tempo livre, que gastávamos ouvindo Never Mind the Bollocks, o primeiro do Clash, Rocket to Russia e uma coletânea punk da revista POP.
Mas éramos obrigados a participar das oficinas. Uma das quais, a oficina de bonecos, nos deu uma idéia genial. Na aula, um professor nos ensinava a costurar meias, calças e camisa, tudo junto, enchendo aquilo de jornal e pronto, um boneco tamanho humano estava produzido. Fazer o quê com esse manequim? Tínhamos a resposta. Naquela sexta, fui dormir na casa dele, a embaixada da África do Sul, no setor de embaixadas sul (Brasília é assim mesmo, uma redundância só!). Esperamos os pais deles ir dormir, e ainda enrolamos um pouco a mais ouvindo discos. Assim que estávamos certos que todos estavam nos braços de morfeu, saímos pelos fundos da embaixada e descemos uma rua que, àquela época, tinha mato em ambos os lados (a capital era assim, um monte de ruas cercadas por mato.) Com uma espingardinha de chumbo apagamos a luz de um dos postes e botamos o boneco deitado no meio do asfalto. Detalhe: para ficar mais realista, o André Pretorious tirou seu tênis novo e calçou o manequim de pano. Depois, nos enfiamos dentro do mato para observar a reação dos carros.
A rua era de pouco movimento. De madrugada, então, quase não passava ninguém. Escondidos, vimos as luzes do farol de um automóvel subindo a rua. Quando o motorista viu o boneco, freiou, repentinamente, e saiu disparado de ré. Rolamos de rir! Nosso plano tinha dado certo. O segundo carro desviou em cima da hora, catando o meio fio e acelerando do local. Estávamos satisfeitos. A nossa alegria terminou no terceiro carro: um patrulha da polícia. Esses pararam e examinaram o “atropelado”, descobrindo a farsa. Puxaram uma lanterna do carro e começaram a vasculhar os arredores, suas pistolas nas mãos.
O André entrou em pânico. Imagine só a vergonha: filho de embaixador pregando peças marotas na madrugada brasiliense. Também tinha o perigo da polícia, afinal, estávamos em plena ditadura. Poderiam achar que éramos terroristas de esquerda, assaltantes ou algo assim, agindo sorrateiramente para destruir embaixadas pela causa comunista. Foram minutos de tensão que pareceram horas. Acho que ouvi o Pretorious rezar, coisa que ele sempre negou.
Ficamos deitados na terra entre os capins gordura esperando os policiais desistirem. Quando ouvimos a patrulhinha ir embora, ainda não nos mexemos, temendo um guarda ter ficado para trás. Passado uns quinze minutos, levantamos, devagar, e constatamos que a costa estava limpa, poderíamos voltar para casa. Daí ouço o André xingar: puta que pariu! Que foi? pergunto. Levaram meus tênis novos, eram importados! Morremos de rir – eu mais do que ele, pois não tive que caminhar para casa de meias.
André Pretorious fundou, junto com o Renato Russo e Felipe Lemos, hoje baterista do Capital Inicial, o Aborto Elétrico, primeiro conjunto punk de Brasília. Para mim, é a figura mais importante de todo o rock candango, pela sua originalidade, energia, garra e determinação.
Naquele mesmo ano, aconteceu um mega-evento, uma espécie de olimpíada escolar de grande porte, no Rio de Janeiro. Oitenta por cento dos alunos da escola foram. Só ficaram para trás um bando de nerds, uns rebeldes e nós (até hoje não sei se me enquadro no primeiro ou segundo grupo...). Como a maioria dos professores também foram, criaram uma programação “alternativa” para aqueles que permaneceram em Brasília. Eram umas oficinas de arte, leitura e muito, muito tempo livre, que gastávamos ouvindo Never Mind the Bollocks, o primeiro do Clash, Rocket to Russia e uma coletânea punk da revista POP.
Mas éramos obrigados a participar das oficinas. Uma das quais, a oficina de bonecos, nos deu uma idéia genial. Na aula, um professor nos ensinava a costurar meias, calças e camisa, tudo junto, enchendo aquilo de jornal e pronto, um boneco tamanho humano estava produzido. Fazer o quê com esse manequim? Tínhamos a resposta. Naquela sexta, fui dormir na casa dele, a embaixada da África do Sul, no setor de embaixadas sul (Brasília é assim mesmo, uma redundância só!). Esperamos os pais deles ir dormir, e ainda enrolamos um pouco a mais ouvindo discos. Assim que estávamos certos que todos estavam nos braços de morfeu, saímos pelos fundos da embaixada e descemos uma rua que, àquela época, tinha mato em ambos os lados (a capital era assim, um monte de ruas cercadas por mato.) Com uma espingardinha de chumbo apagamos a luz de um dos postes e botamos o boneco deitado no meio do asfalto. Detalhe: para ficar mais realista, o André Pretorious tirou seu tênis novo e calçou o manequim de pano. Depois, nos enfiamos dentro do mato para observar a reação dos carros.
A rua era de pouco movimento. De madrugada, então, quase não passava ninguém. Escondidos, vimos as luzes do farol de um automóvel subindo a rua. Quando o motorista viu o boneco, freiou, repentinamente, e saiu disparado de ré. Rolamos de rir! Nosso plano tinha dado certo. O segundo carro desviou em cima da hora, catando o meio fio e acelerando do local. Estávamos satisfeitos. A nossa alegria terminou no terceiro carro: um patrulha da polícia. Esses pararam e examinaram o “atropelado”, descobrindo a farsa. Puxaram uma lanterna do carro e começaram a vasculhar os arredores, suas pistolas nas mãos.
O André entrou em pânico. Imagine só a vergonha: filho de embaixador pregando peças marotas na madrugada brasiliense. Também tinha o perigo da polícia, afinal, estávamos em plena ditadura. Poderiam achar que éramos terroristas de esquerda, assaltantes ou algo assim, agindo sorrateiramente para destruir embaixadas pela causa comunista. Foram minutos de tensão que pareceram horas. Acho que ouvi o Pretorious rezar, coisa que ele sempre negou.
Ficamos deitados na terra entre os capins gordura esperando os policiais desistirem. Quando ouvimos a patrulhinha ir embora, ainda não nos mexemos, temendo um guarda ter ficado para trás. Passado uns quinze minutos, levantamos, devagar, e constatamos que a costa estava limpa, poderíamos voltar para casa. Daí ouço o André xingar: puta que pariu! Que foi? pergunto. Levaram meus tênis novos, eram importados! Morremos de rir – eu mais do que ele, pois não tive que caminhar para casa de meias.
André Pretorious fundou, junto com o Renato Russo e Felipe Lemos, hoje baterista do Capital Inicial, o Aborto Elétrico, primeiro conjunto punk de Brasília. Para mim, é a figura mais importante de todo o rock candango, pela sua originalidade, energia, garra e determinação.
Notícias do Front - De volta ao ponto.
Os marcos de destruição e perda causados pelo piripaque do computador do Philippe foram rapidamente saneados pelo competentíssimo Txotxa. E tem males que vem para o bem, pois as regravações das baterias perdidas ficaram bem melhores do que as originais. Então, estamos de volta ao ponto de partida. Meu palpite: fim de março = fim das gravações.
quinta-feira, março 03, 2005
Notícias do Front- baixas e destruição!
As notícias não são boas. Lembram daquele pau que o computador do Philippe deu? Bom, perdemos todas as baterias gravadas pelo Txotxa e todos os baixos gravados por mim. Foram para o espaço!
Sem lágrimas, nobres plebeus! Perdemos a batalha, mas estamos ganhando a guerra. A regravação vai ser muito mais fácil, provavelmente num fim-de-semana estaremos de volta ao ponto de vozes e guitarras.
Mas a lição fica: façam back-up para não dar um fuck-up!
Sem lágrimas, nobres plebeus! Perdemos a batalha, mas estamos ganhando a guerra. A regravação vai ser muito mais fácil, provavelmente num fim-de-semana estaremos de volta ao ponto de vozes e guitarras.
Mas a lição fica: façam back-up para não dar um fuck-up!
quarta-feira, março 02, 2005
QUEM PEIDOU NA SAUNA?
Sábado pré-páscoa, exprimido entre a Sexta-Feira Santa e o Domingo. Caí uma chuvinha fina, daquelas que as gotas ficam suspensas no ar. Nada de bom na programação da tarde na TV, os amigos que puderam viajar já estão longe de Brasília. Aliais, aqui tem um ditado: “quando você passar pelo Conjunto Nacional e achar a fachada bonita, está na hora de sair de Brasília”. Tenho medo de dar uma volta de carro e achar lindo aqueles anúncios iluminados. Tédio total!
De repente, lembro da sauna na cobertura coletiva do prédio. Santa solução, Batman! Ligo para o porteiro, que confirma: está ligada desde a manhã. Beleza! Deve estar quentinha! Visto uma sunga, agarro uma toalha e corro escada acima até a laje superior do bloco, onde ficam as churrasqueiras, a piscina (na verdade um tanque disfarçado) e, meu objetivo, a sauna. Ficar deitado, suando, nos degraus de azulejo vai salvar o dia. Depois, talvez, saia para rehidratar e tomar uns chopes.
Chegando lá, vejo os sinais indicando que tudo não vai ser tão perfeito assim. No pé da porta metálica que dá acesso à sauna, uma coleção de sandálias, chinelos, tamancos e tênis. Na parede, algumas toalhas penduradas. Mais toalhas, dobradas, empilhadas em cima do muro. Putz, outros estão lá dentro, nem todos abandonaram Brasília! Não faz mal, tento me animar, vai ser legal ter alguém com quem conversar. Chuto minhas havaianas do Atlético Paranaense para longe, jogo a toalha em cima da pilha e adentro a sala quente.
O bafo quente força os olhos a piscarem, enquanto fecho a porta o mais rápido possível, para evitar a perda de calor. Quando me viro, e o foco de visão se acostuma à meia-luz, percebo que todos os outros moradores do bloco tiveram a mesma idéia, o lugar está lotado! Nos três degraus da sauna tem gente empilhada, sentados, seminus, espremidas, lado a lado. Ameaço ir embora, achando melhor ir direto ao chope. Quando estou dando meia volta, a gorda do andar debaixo vomita o velho clichê:
- Sempre cabe mais um para quem usa Rexona. Saí pro lado, Wilson (que é seu marido, um magricela), vamos lá, gente, vamos fazer espaço para o vizinho.
Todos mexem as bundas, movendo um pouco para a direita, com sorrisos forçados nos lábios. Logo, uma brecha se abre entre os corpos suados. Bem ao lado da gorda. Sou obrigado a aceitar, tendo em vista o esforço que fizeram. Agradeço e sento no pequeno espaço, tentando abstrair o pensamento da troca de suores quando minha pele esbarra na dos meus vizinhos de banco. E assim ficamos, calados, como galinhas no poleiro, transpirando coletivamente.
Um trovão soa, quebrando a meditação grupal. Um peido! Daqueles bem dados, altos, que animam reuniões de velhos geriátricos. Esse devia entrar para o Guiness, pois, além da sonoridade, longa e grave, enche o pequeno quarto azulejado com um fedor horroroso. É a fetidez das entranhas podre do ser humano alimentado de bacalhau, ovos de chocolate e outras coisas típicas da Semana Santa. A sauna vira uma câmera de gás. Entre gemidos de reclamação e nojo, alguns ameaçam abandonar o barco. Daí eu grito, meio por instinto:
- O primeiro a sair é quem peidou!
Os dissidentes levam isso a sério e voltam para seus lugares. Outros, que também queriam ir embora, desistem. Ninguém quer ficar com fama de peidão perante o condomínio e, assim, permanecemos no calor, que está beirando ficar insuportável. Depois de uns quinze minutos, a gatinha do 412, ainda com os dedos segurando o nariz para evitar cheirar o ar, reclama:
- Não agüento mais, tá muito quente, véio! Vamos acabar com isso. Já passou. Vou embora, falou?
A galera ri, dando a entender que se ela realmente se retirar, vai ficar subentendido que ela que é a flatulenta. Bonita, mas podre por dentro. A menina desiste e fica onde está. Melhor derreter, pegar uma insolação do que ser taxada de peidolenta. A gorda tem outra idéia:
- Vamos pelo menos diminuir o calor. Vamos deixar a porta aberta, daí o vapor sai e a gente fica mais à vontade.
Ninguém aceita a idéia. Falam todos de uma vez, argumentando que, se as condições ficarem propícias, o culpado nunca vai se revelar. Temos que sofrer, até que o peidão não agüente mais e assuma sua condição de porco anti-social. O calor aumenta, já estou tonto, transpiro rios de suor, a visão começa a falhar. Assim não dá, decido. Resolvo admitir tudo, me levantando e confessando timidamente, enquanto caminho em direção à saída:
- Tá bom, tá bom, fui eu. Tô fora, tchau!
Meus companheiros de bloco me olham como se fosse um criminoso, afinal, a idéia de todos ficarem na sauna até o criminoso se identificar foi minha. Quando estou saindo, um senhor, sentado bem ao lado da porta, reclama:
- Não sabe segurar não, rapaz?
- Eu não, o senhor sabe?
- Sei sim, filho.
- Então segura essa! – digo, soltando outro peido fedorento em sua cara e me mandando do lugar.
De repente, lembro da sauna na cobertura coletiva do prédio. Santa solução, Batman! Ligo para o porteiro, que confirma: está ligada desde a manhã. Beleza! Deve estar quentinha! Visto uma sunga, agarro uma toalha e corro escada acima até a laje superior do bloco, onde ficam as churrasqueiras, a piscina (na verdade um tanque disfarçado) e, meu objetivo, a sauna. Ficar deitado, suando, nos degraus de azulejo vai salvar o dia. Depois, talvez, saia para rehidratar e tomar uns chopes.
Chegando lá, vejo os sinais indicando que tudo não vai ser tão perfeito assim. No pé da porta metálica que dá acesso à sauna, uma coleção de sandálias, chinelos, tamancos e tênis. Na parede, algumas toalhas penduradas. Mais toalhas, dobradas, empilhadas em cima do muro. Putz, outros estão lá dentro, nem todos abandonaram Brasília! Não faz mal, tento me animar, vai ser legal ter alguém com quem conversar. Chuto minhas havaianas do Atlético Paranaense para longe, jogo a toalha em cima da pilha e adentro a sala quente.
O bafo quente força os olhos a piscarem, enquanto fecho a porta o mais rápido possível, para evitar a perda de calor. Quando me viro, e o foco de visão se acostuma à meia-luz, percebo que todos os outros moradores do bloco tiveram a mesma idéia, o lugar está lotado! Nos três degraus da sauna tem gente empilhada, sentados, seminus, espremidas, lado a lado. Ameaço ir embora, achando melhor ir direto ao chope. Quando estou dando meia volta, a gorda do andar debaixo vomita o velho clichê:
- Sempre cabe mais um para quem usa Rexona. Saí pro lado, Wilson (que é seu marido, um magricela), vamos lá, gente, vamos fazer espaço para o vizinho.
Todos mexem as bundas, movendo um pouco para a direita, com sorrisos forçados nos lábios. Logo, uma brecha se abre entre os corpos suados. Bem ao lado da gorda. Sou obrigado a aceitar, tendo em vista o esforço que fizeram. Agradeço e sento no pequeno espaço, tentando abstrair o pensamento da troca de suores quando minha pele esbarra na dos meus vizinhos de banco. E assim ficamos, calados, como galinhas no poleiro, transpirando coletivamente.
Um trovão soa, quebrando a meditação grupal. Um peido! Daqueles bem dados, altos, que animam reuniões de velhos geriátricos. Esse devia entrar para o Guiness, pois, além da sonoridade, longa e grave, enche o pequeno quarto azulejado com um fedor horroroso. É a fetidez das entranhas podre do ser humano alimentado de bacalhau, ovos de chocolate e outras coisas típicas da Semana Santa. A sauna vira uma câmera de gás. Entre gemidos de reclamação e nojo, alguns ameaçam abandonar o barco. Daí eu grito, meio por instinto:
- O primeiro a sair é quem peidou!
Os dissidentes levam isso a sério e voltam para seus lugares. Outros, que também queriam ir embora, desistem. Ninguém quer ficar com fama de peidão perante o condomínio e, assim, permanecemos no calor, que está beirando ficar insuportável. Depois de uns quinze minutos, a gatinha do 412, ainda com os dedos segurando o nariz para evitar cheirar o ar, reclama:
- Não agüento mais, tá muito quente, véio! Vamos acabar com isso. Já passou. Vou embora, falou?
A galera ri, dando a entender que se ela realmente se retirar, vai ficar subentendido que ela que é a flatulenta. Bonita, mas podre por dentro. A menina desiste e fica onde está. Melhor derreter, pegar uma insolação do que ser taxada de peidolenta. A gorda tem outra idéia:
- Vamos pelo menos diminuir o calor. Vamos deixar a porta aberta, daí o vapor sai e a gente fica mais à vontade.
Ninguém aceita a idéia. Falam todos de uma vez, argumentando que, se as condições ficarem propícias, o culpado nunca vai se revelar. Temos que sofrer, até que o peidão não agüente mais e assuma sua condição de porco anti-social. O calor aumenta, já estou tonto, transpiro rios de suor, a visão começa a falhar. Assim não dá, decido. Resolvo admitir tudo, me levantando e confessando timidamente, enquanto caminho em direção à saída:
- Tá bom, tá bom, fui eu. Tô fora, tchau!
Meus companheiros de bloco me olham como se fosse um criminoso, afinal, a idéia de todos ficarem na sauna até o criminoso se identificar foi minha. Quando estou saindo, um senhor, sentado bem ao lado da porta, reclama:
- Não sabe segurar não, rapaz?
- Eu não, o senhor sabe?
- Sei sim, filho.
- Então segura essa! – digo, soltando outro peido fedorento em sua cara e me mandando do lugar.
terça-feira, março 01, 2005
LONDON CALLING FAZ 25 ANOS
No último dia 25 de fevereiro, saiu um artigo no Correio Braziliense sobre os 25 anos do disco London Calling, do Clash. A pedidos, escrevi um complemento ao texto, que incluo abaixo.
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Imagine o cenário: Sheffield, cidade industrial no norte da Inglaterra, vizinha de Manchester, só que mais escura, mais sombria e suja. 1979, dois brasileiros, meu irmão Bernardo e eu, entramos numa loja de discos, depositamos nossas mesadas no balcão e saímos para enfrentar uma caminhada gélida com uma cópia do LP duplo London Calling do Clash debaixo de nossos braços. Assim que entramos em casa, o lado um do primeiro disco vai para a vitrola, antes de acender o aquecedor, antes de tirar as luvas e os cachecóis. Ouvimos consecutivamente os quatro lados até a hora de dormir. Um clássico instantâneo, um divisor de águas. O melhor disco de rock de todos os tempos? Sem dúvida, à época, nos pareceu que sim.
O quarteto Clash já era nosso herói punk desde a saída do Brasil, um ano antes. O primeiro disco, de 1977, trazia o ante-projeto do que seriam os anos 1980, o London Calling, cristalizou o conceito. Era um disco duplo que foi vendido, a pedidos da banda, por o preço de um. Eles abriram mão dos próprios rendimentos, isso tocava nossos corações. As músicas eram todas perfeitas e tiveram a coragem de fugir da camisa de força que o movimento punk estava forçando quanto a criatividade das bandas. Nos dois discos, tínhamos jazz, folk, funk, rock'a'billy e rock, tudo interpretado sob o ponto de vista do punk. A mensagem era que não tínhamos que ficar parados no tempo, que o movimento não era só um espasmo iconoclasta, mas sim uma reconstrução do rock n roll.
A faixa título, Brand New Cadillac, Jimmy Jazz, Lost in the Supermarket, nossa, só de escrever o nome dessas músicas consigo imaginar cada acorde, cada letra na minha cabeça. Sem o London Calling, talvez fossemos obrigados a ouvir GBH e Exploited durante o resto da vida, gritando clichês vazios em fórums sociais. O Clash nos ensinou a pensar e a lição principal está em London Calling.
Outro grande feito do disco foi ter aberto o mercado americano, e conseqüentemente mundial, ao punk e new wave. Não que seja necessário invadir a América, mas, sem isso, a banda estaria até hoje rezando para os convertidos, igual ao Fall, conjunto tão importante quanto o Clash, mas que não conseguiu produzir o seu London Calling (o quê? não conhece The Fall? tá esperando o que, a MTV te apresentar?).
E claro, sem o Clash, não haveria Plebe Rude. 25 anos depois, o disco ainda soa tão sensacional tanto. Só que agora, ligo o ar condicionado para ouvir.
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Imagine o cenário: Sheffield, cidade industrial no norte da Inglaterra, vizinha de Manchester, só que mais escura, mais sombria e suja. 1979, dois brasileiros, meu irmão Bernardo e eu, entramos numa loja de discos, depositamos nossas mesadas no balcão e saímos para enfrentar uma caminhada gélida com uma cópia do LP duplo London Calling do Clash debaixo de nossos braços. Assim que entramos em casa, o lado um do primeiro disco vai para a vitrola, antes de acender o aquecedor, antes de tirar as luvas e os cachecóis. Ouvimos consecutivamente os quatro lados até a hora de dormir. Um clássico instantâneo, um divisor de águas. O melhor disco de rock de todos os tempos? Sem dúvida, à época, nos pareceu que sim.
O quarteto Clash já era nosso herói punk desde a saída do Brasil, um ano antes. O primeiro disco, de 1977, trazia o ante-projeto do que seriam os anos 1980, o London Calling, cristalizou o conceito. Era um disco duplo que foi vendido, a pedidos da banda, por o preço de um. Eles abriram mão dos próprios rendimentos, isso tocava nossos corações. As músicas eram todas perfeitas e tiveram a coragem de fugir da camisa de força que o movimento punk estava forçando quanto a criatividade das bandas. Nos dois discos, tínhamos jazz, folk, funk, rock'a'billy e rock, tudo interpretado sob o ponto de vista do punk. A mensagem era que não tínhamos que ficar parados no tempo, que o movimento não era só um espasmo iconoclasta, mas sim uma reconstrução do rock n roll.
A faixa título, Brand New Cadillac, Jimmy Jazz, Lost in the Supermarket, nossa, só de escrever o nome dessas músicas consigo imaginar cada acorde, cada letra na minha cabeça. Sem o London Calling, talvez fossemos obrigados a ouvir GBH e Exploited durante o resto da vida, gritando clichês vazios em fórums sociais. O Clash nos ensinou a pensar e a lição principal está em London Calling.
Outro grande feito do disco foi ter aberto o mercado americano, e conseqüentemente mundial, ao punk e new wave. Não que seja necessário invadir a América, mas, sem isso, a banda estaria até hoje rezando para os convertidos, igual ao Fall, conjunto tão importante quanto o Clash, mas que não conseguiu produzir o seu London Calling (o quê? não conhece The Fall? tá esperando o que, a MTV te apresentar?).
E claro, sem o Clash, não haveria Plebe Rude. 25 anos depois, o disco ainda soa tão sensacional tanto. Só que agora, ligo o ar condicionado para ouvir.
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